É sob a perspectiva de afirmação da importância da polícia como ferramenta democrática de controle social que se pode
compreender as palavras de ordem pelo fim das PMs como demandas que apontam para a reforma do sistema policial, para
a implementação de dispositivos de governança, de responsabilização e de accountability do uso potencial e concreto de
força, de modo a conter os efeitos perversos da ação policial e seus impactos na vida em sociedade. Trata-se, no Brasil, de
transformar as polícias estatais em polícias públicas sob o controle da sociedade e abertas à participação da comunidade
policiada. Trata-se de blindar as polícias das tiranias de governos, da opressão de seus procuradores e da clientelização por
grupos de poder. Seria ingênuo e, em boa medida, inconsequente, supor a extinção da polícia como ferramenta de controle
social, uma vez que sua efetiva inexistência implicaria a sua substituição por mecanismos arbitrários e despóticos de proteção
e, ainda, a privatização da segurança pública.
Quanto aos que evocam palavras de ordem justiceiras e punitivistas cabe também uma advertência. Aqueles que promovem
a intolerância, o ódio e a vingança como expedientes de uma suposta “defesa social” tornam-se vítimas de sua própria visão
temerária e vingativa do mundo. Afinal, o mundo de desconfianças e suspeições recíprocas proposto pelos promotores do
“tiro, porrada e bomba” contra o outro, dá vida à Esculachocracia – um regime de imposição de crenças e vontades
particulares de uns sobre os outros que não tem limite, que não se tem como saber quando termina a predação e, por
conseguinte, onde pôr a cerca que idealmente separaria os autodesignados “cidadãos de bem”, arautos de cruzadas
moralistas, daqueles vistos como “cidadãos do mal”, classificados como irrecuperáveis e integrantes das chamadas “classes
perigosas”.
Nesse mundo, todos vão ficando tomados pelo surto da “pequena autoridade” que, com seus “peitos de pombo” estufados,
elege suas próprias razões de cor, de sexo, de gênero, de religião, de idade, de classe e de renda como a fita métrica que
distingue o que pode do que não pode, o certo do errado. Tudo isso contra o interesse comum, contra o pacto sociopolítico
definido pela sociedade diante de seu governo legitimamente eleito. Na Esculachocracia, vivificada por procedimentos
continuados de exceção, pela ambiência de excepcionalidade criada por intervenções como modo de governar, os indivíduos
e grupos vão ficando mais desavergonhados, sem freios, mais confortáveis com os seus preconceitos, mais à vontade para
repreenderem a conduta que consideram indesejável, pregarem o sermão da sua montanha, darem “lição de moral” e, ali
mesmo, julgarem, e, no mesmo momento, punirem conforme sua conveniência.
(Trecho da entrevista de JACQUELINE MUNIZ retirado de Respondendo às balas: Segurança Pública sob intervenção das palavras. 2018. Disponível em
https://app.uff.br/riuff/handle/1/12258).
Considerando os processos de formação de palavras e
o emprego das expressões “Esculachocracia”,
“accountability” e “clientelização” no texto, analise as
assertivas a seguir:
I. A palavra “Esculachocracia” é um neologismo formado
pela união de um elemento coloquial (“esculacho”) e
de um sufixo de origem grega (“-cracia”), configurando
um caso de derivação sufixal com valor expressivo e
avaliativo.
II. A forma “accountability”, tal como empregada no texto,
caracteriza-se como um estrangeirismo não adaptado,
funcionando como empréstimo lexical sem integração
morfológica ao português.
III. O termo “clientelização” deriva da união da base
“cliente” a um sufixo nominal formador de abstrações
(“-ização”), constituindo um caso de derivação sufixal
que expressa processo ou resultado de ação.
IV. A criação de “Esculachocracia” constitui exemplo de
justaposição, pois a combinação entre “esculacho” e “-
cracia” preserva integralmente a autonomia sonora e
morfológica de ambos os elementos.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência
correta:
Autenticação
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