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#3365086

“(...) Sabemos que o ensino de artes no Brasil tem sofrido as consequências de posturas racionalistas e dualistas arraigadas ao pensamento pedagógico brasileiro. Nossa escola formal está fundada em valores que há séculos têm valorizado o conhecimento analítico / descritivo / linear em detrimento do conhecimento / sintético/ sistêmico / corporal / intuitivo. Já em 1978, Ana Mae Barbosa apontava para a divisão entre o trabalho manual e a intelectual instaurada no país desde os primórdios da colonização como uma das causas do status secundário (às vezes inexistente) das artes no currículo escolar brasileiro. As artes, frequentemente associadas ao trabalho manual, foram também associadas à condição de "escravos". Não é de se admirar, portanto, que uma arte como a dança, que trabalha direta e primordialmente com o corpo, tenha sido durante séculos "presa nos porões e escondida nas senzalas": foi banida do convívio de outras disciplinas na escola, ou então atrelada ao tronco e chicoteada, até que alguma alma boa pudesse convencer "o feitor" de sua "inocência". Passados alguns anos desde que pesquisadores começaram a estudar e analisar a situação das artes no país, percebo que a dança, todavia parece representar um risco muito grande para a educação formal, pois ela continua sendo uma desconhecida da / para a escola. Propostas com dança que trabalhem seus aspectos criativos, portanto imprevisíveis e indeterminados, ainda "assustam" aqueles que aprenderam e são regidos pela didática tradicional. Os processos de criação em dança acabam não se encaixando nos modelos tradicionais de educação que ainda são predominantes em nossas escolas que permanecem advogando por um ensino "garantido" (sabemos onde vamos chegar), conhecido (já temos experiências de muitos anos na área), determinado e pré-planejado (não haverá surpresas) (...)”.
MARQUES, Isabel A. Dançando na Escola.
A partir da leitura do texto, compreende-se que, na perspectiva da autora:

  • A escola formal não é um espaço privilegiado para que se aprenda dança com profundidade. Nela, a dança deve predominantemente cumprir funções recreativas.
  • É na perspectiva da diversidade e da multiplicidade de propostas e ações que caracterizam o mundo contemporâneo que seria interessante lançarmos um olhar mais crítico sobre a dança na escola que por tantos séculos negligenciou o corpo, a arte e, portanto, a dança.
  • O posicionamento atual sobre o sentido do que é educação, formação, ensino e aprendizagem no que tange à expressividade corporal se desenvolveu em harmonia com as exigências da sociedade tecnológica e em permanente transformação, e essa perspectiva é o que vêm sendo aplicada na prática nas escolas brasileiras.
  • Uma postura crítica em relação ao ensino de dança engloba conteúdos tão amplos e complexos quanto coreografias de carnaval ou reproduções de danças folclóricas, sendo desejável que a abordagem que prioriza o ensino intuitivo e criativo das práticas corporais seja tão valorizada quanto a abordagem que tem como foco o ensino "garantido" e tradicional.
  • O pré-planejamento é desejável, porém dispensável, uma vez que no que se refere ao ensino da Dança, a prioridade é desenvolver nos educandos a livre expressão a partir do chamado “método do improviso”.
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