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De acordo com Valter Bracht (1999) o tratamento do corpo na EF sofreu e sofre influências externas da cultura e da sociedade, mas também internas, ou seja, da própria instituição escolar.

“Nesse sentido, o corpo sofre a ação, sofre várias intervenções com a finalidade de adaptá-lo às exigências das formas sociais de organização da produção e da reprodução da vida. Alvo das necessidades produtivas (corpo produtivo), das necessidades sanitárias (corpo “saudável”), das necessidades morais (corpo deserotizado), das necessidades de adaptação e controle social (corpo dócil). O déficit de dignidade do corpo vinha de seu caráter secundário perante a força emancipatória do espírito ou da razão. Mas esse mesmo corpo, assim produzido historicamente, repunha a necessidade da produção de um discurso que o secundarizava, exatamente porque causava  um certo mal-estar à cultura dominante. Ele precisa, assim, ser alvo de educação, mesmo porque educação corporal é educação do comportamento que, por sua vez, não é corporal, e sim humano. Educar o comportamento corporal é educar o comportamento humano.

(Bracht, Valter. "A constituição das teorias pedagógicas da educação física." Cadernos Cedes 19 (1999): 69-88.)

Com base nas teorias críticas e pós-críticas, as construções históricas da Educação Física (EF) tratam o corpo e a educação corporal da seguinte forma:

  • No século XX, o corpo é igualado a uma estrutura mecânica – a visão mecanicista do mundo é aplicada ao corpo e a seu funcionamento. A Ciência passa a controlar a nossa natureza corporal, fornecendo os elementos que permitirão um controle eficiente sobre o corpo. Melhorar o funcionamento dessa máquina depende do conhecimento que se tem de seu funcionamento e das técnicas corporais construídas com base nesse conhecimento.
  • Movimentos militares e religiosos são signatários do entendimento de que a educação da vontade e do caráter dificilmente são conseguidas com base em ações sobre o corpóreo. Normas e valores são literalmente “incorporados” pela sua vivência intelectual. Porém a obediência aos superiores precisa ser vivenciada corporalmente para ser conseguida; é algo mais do plano sensível do que do intelectual.
  • A Educação Física surge com a função de colaborar na construção de corpos saudáveis e dóceis, ou seja, com uma educação corporal que permitisse uma adequada adaptação ao processo produtivo numa perspectiva política nacionalista. Educar o corpo para a produção significa promover saúde e educação para a saúde (hábitos saudáveis, higiênicos). Essa saúde ou virilidade (força) também foi ressignificada numa perspectiva nacionalista/patriótica.
  • O conhecimento de que trata a Educação Física, qual seja o conhecimento do corpo, foi também legitimado pelo conhecimento médico-científico que negava as possibilidades, a necessidade e as vantagens de tal intervenção sobre o corpo. A medicina representa, em nossa sociedade, um saber em alguma medida oficial sobre o corpo.
  • Outro fenômeno muito importante para a política do corpo foi gestado e adquiriu grande significação social no século XVII. Trata-se da prática esportiva, fortemente orientada pelos princípios da concorrência e do rendimento, com impactos positivos sobre a saúde e a capacidade de trabalho/rendimento individual e social, corroborando os objetivos da política do corpo.
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