Em minutos espalhara-se a notícia: uma baleia no Leme
e outra no Leblon haviam surgido na arrebentação de onde
tinham tentado sair sem, no entanto, poder voltar. Eram descomunais apesar de apenas filhotes. Todos foram ver. Eu não
fui: sobre a mais próxima de mim, corria o boato de que ela
agonizava já há oito horas e que até atirar nela haviam atirado mas ela continuava agonizando e sem morrer.
Senti um horror diante do que contavam e que talvez não
fossem estritamente os fatos reais, mas a lenda já estava
formada em torno do extraordinário que enfim, enfim! acontecia, pois, por pura sede de vida melhor, estamos sempre à
espera do extraordinário que talvez nos salve de uma vida
contida. Se fosse um homem que estivesse agonizando na
praia durante oito horas, nós o santificaríamos, tanto precisamos de crer no que é impossível.
Não.
Não fui vê-la: detesto a morte.
(LISPECTOR, Clarice. Crônicas para jovens:
do Rio de Janeiro e seus personagens. Rio de Janeiro:
Rocco jovens leitores, 2011. Excerto adaptado)
Conforme a autora,
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