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#2538973
Texto da Questão:

Texto II

Catar Feijão


Catar feijão se limita com escrever:

joga-se os grãos na água do alguidar

e as palavras na folha de papel;

e depois, joga-se fora o que boiar.

Certo, toda palavra boiará no papel,

água congelada, por chumbo seu verbo:

pois para catar esse feijão, soprar nele,

e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:

o de que entre os grãos pesados entre

um grão qualquer, pedra ou indigesto,

um grão imastigável, de quebrar dente.

Certo não, quando ao catar palavras:

a pedra dá à frase seu grão mais vivo:

obstrui a leitura fluviante, flutual,

açula a atenção, isca-a como o risco.

MELO NETO, João Cabral de. Antologia Poética. 7. ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1989.

Analisando o poema catar feijão, de João Cabral de Melo Neto, compreendemos que:

  • As atividades de catar feijão e escrever são bastante contrastantes. No primeiro caso, deve-se jogar os grãos de feijão na água do alguidar, e aqueles que boiarem serão jogados fora. No caso da escrita, as palavras serão postas no papel, e aquelas que não tiverem volume suficiente para figurar na obra escrita serão descartadas, embora palavra nenhuma tenha peso próprio, apenas sua significação. Assim, o que for necessário, consistente, boiará na água— no caso do feijão — ou ficará superficial no papel.
  • Revela traços característicos da metalinguagem, na qual o poeta se utiliza do fazer poético para explicá-lo, atribuindo à linguagem toda a magia e encantamento, ora materializada por meio do “arquitetar” do discurso.
  • Diverge-se do regionalismo crítico e faz dos aspectos elementares, através de antíteses, seu elemento poético capturado pela essência imaginativa do artista.
  • No excerto poético em questão, o poeta ameniza as mazelas conferidas por um fato social extremamente agravante por meio de uma linguagem tênue, procurando, magnificamente, abrandá-la
  • Há uma característica intrínseca à personalidade do autor – a contenção e o lirismo. Sua poesia tem como fonte inspiradora a própria realidade revelada pelo cotidiano. Nela, o poeta é mais um sonhador.
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