"Ora, um boato é uma espécie de “enjeitadinho” que
aparece à soleira duma porta, num canto de muro ou
mesmo no meio duma rua ou duma calçada, ali
abandonado não se sabe por quem; em suma, um
recém-nascido de genitores ignorados. Um popular
acha-o engraçadinho ou monstruoso, toma-o nos
braços, nina-o, passa-o depois ao primeiro conhecido
que encontra, o qual por sua vez entrega o inocente ao
cuidado de outro ou de outros, e assim o bastardinho
vai sendo amamentado de seio em seio ou, melhor, de
imaginação em imaginação, e em poucos minutos
cresce, fica adulto - tão substancial e dramático é o leite
da fantasia popular - começa a caminhar pelas próprias
pernas, a falar com a própria voz e, perdida a inocência,
a pensar com a própria cabeça desvairada, e há um
momento em que se transforma num gigante, maior
que os mais altos edifícios da cidade, causando temores
e às vezes até pânico entre a população, apavorando
até mesmo aquele que inadvertidamente o gerou."
(Érico Veríssimo, Incidente em Antares)
A partir da metáfora central desenvolvida pelo autor
para definir o "boato", compreende-se que ele é
caracterizado predominantemente como:
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