Preciso te dizer, Paula, que “A velha aí do lado” a quem você se referia também como “a carcaça
ressabiada”, “o pacote de ossos”, “a semente senil” e outras expressões exuberantes que o teu talento
verbal sempre é capaz de forjar mesmo para falar das coisas mirradas da vida, nunca te revelei, Paula,
te revelo agora: “aquele ventre seco” é minha mãe, faz anos que vivemos em kitchenettes separadas,
ainda que ao lado uma da outra. Não seja tola, Paula, não estou te recriminando nada, sempre assisti
com indiferença aos arremedos que você fazia da “bruxa velha, preparando a poção pra envenenar
nossas relações”. [...]. Quero antes lembrar o que minha mãe te dizia quando você, ao cruzar com ela,
e “só pra tirar um sarro”, perguntava maliciosamente por mim, te sugerindo eu agora a mesma prudência,
se acaso amanhã teus amigos quiserem saber a meu respeito. Você pode dispensar “a ridícula
solenidade da velha”, mas não dispense o seu irrepreensível comedimento, responda como ela
invariavelmente te respondia: “não conheço esse senhor”.
Trecho adaptado de NASSAR, Raduan. O ventre seco. In: _____. Menina a caminho e outros textos. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras,
1997, p. 67-68.
Para que a textualidade se configure como possível, é importante que alguns elementos linguísticos atuem
em conformidade para a boa comunicação. O texto acima, caracterizado como um desabafo, faz uso de
estratégias de progressão referencial que permitem perceber a evolução da cadeia referencial, conforme
progridem as informações construídas na tessitura textual. Desse modo, pode-se afirmar que:
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