Certa vez, eu ia dar uma palestra sobre educação. Ainda no hotel, conversei com alguns jornalistas. O primeiro deles a
falar, um rapaz simpático, perguntou qual seria o tema da minha apresentação. Respondi: “Educação e autoridade". Ele
piscou os claros olhos e disse, espontaneamente: “Autoridade? Aquilo que diz isso pode, isso não pode?" Achei graça e
confirmei: “Isso mesmo".
O assunto me voltou à lembrança nestes dias em que tanto se fragilizam o conceito e a instituição “autoridade" no
país varado de manifestações e greves. Não quero analisar se elas são justas: geralmente têm sido. Há miséria, omissão,
desencanto e injustiça demais por aqui. Mas eu falo na questão da autoridade: quando se baseia no respeito, encontra
eco. Quando mal fundamentada, vem a confusão, como nesta fase em que a inquietação pipoca em tantos pontos e
momentos, em toda sorte de protesto. [...]
Não sou do tipo severo, não sou rigorosa demais, porém me preocupa esse singular sentimento de mal‐estar,
expresso por tanta gente quando diz: “Tem algo esquisito no Brasil, algo estranho paira no ar, não consigo definir bem".
Muitas coisas inquietantes acontecem, talvez tantas que não se possam qualificar com uma expressão só. Mas um dos
fatores dessa situação é a quebra da autoridade, e de seu irmão, o respeito: isso se conquista. Respeito é essencial para
que qualquer coisa funcione: tem a ver com hierarquia, com cuidados, como na família – organização em que tudo
começa. Quem ama cuida e, em certos momentos, precisa exercer autoridade, sobretudo com relação a crianças e
adolescentes. Pois, se os adultos não conseguem ter, e impor, um mínimo de ordem no ambiente familiar, na compostura
dos filhos (e de si próprios), não haverá uma família, mas um grupo desordenado, possivelmente belicoso, e de pouca
ajuda na preparação para os embates da vida lá fora. Talvez, nesse território pessoal, fosse bom deixar um pouco de lado
os psicologismos (não falo da verdadeira psicologia, que pode ajudar a minimizar graves problemas individuais ou de
convivência), que nos sugerem exercer quase zero de autoridade, e nada de severidade, tentando sempre “o diálogo".
Nem sempre é possível dialogar com uma criança enfurecida ou um adolescente confuso, e uma dose amorosa de rigor
pode pôr as coisas de novo em ordem, aliviando a situação. [...]
Se não somos iguais – nem devemos ser, pois cada indivíduo é único, cada grupo, região, país e cultura são únicos – o
essencial é que todos tenham a máxima dignidade para se sentir respeitados, e as melhores condições para que possam se
desenvolver. Segurança, tranquilidade, educação, saúde, moradia, transporte deveriam ser bens óbvios de cada pessoa.
Copa ou não Copa, é bom rever nossos valores em todos os níveis. Pois, se continuar a generalizada inquietação social
cada dia mais grave, desmoronam as instituições que nos orientam, amparam e nos tornam (ainda) uma democracia.
(Lya Luft, Revista Veja. Junho de 2014. Adaptado.)
“... saúde, moradia, transporte deveriam ser bens óbvios de cada pessoa.” (4º§). A palavra que possui o sentido oposto
de “óbvio” é
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