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#2612054
Texto da Questão:


Sintaxe estranha?

Sírio Possenti

Em sua coluna de 13/3/2014 na Folha de S. Paulo, o Prof. Pasquale criticou duramente uma construção cada vez mais frequente. Os exemplos são do tipo “O técnico da TAP estava previsto para chegar a Cabo Verde…” e “Aponte está prevista para ser inaugurada…”. Segundo ele, não faz o menor sentido ligar “ponte” ou “técnico” a “estar previsto/a”. O que se prevê é a chegada do técnico e a inauguração da ponte. Esta concepção de sintaxe como devendo não se sustenta, no entanto. São muitos os exemplos de estruturas sintáticas que interpretamos “indiretamente”, digamos assim. Todos sabemos, por exemplo, que pneus de carro podem furar, que ponteiros de relógio podem quebrar (ou ser furados e quebrados). Mas todos ouvimos e dizemos também construções como “o carro furou o pneu” e “o relógio quebrou o ponteiro”. Isso não quer dizer que pensamos que o carro e o relógio são os agentes que furam o pneu e quebram o ponteiro. Esses exemplos são pequena amostra de que a organização sintática não é uma exteriorização ponto por ponto, e na mesma ordem, de eventuais pensamentos. O sentido é sempre o resultado da interpretação. Há algum tempo, comentei aqui uma instrução que se ouve assim que aviões pousam: “… só fume nas áreas permitidas”. É óbvio que o que se permite em certas áreas é que se fume. Isso não faz da área uma “área permitida” – literalmente. A sintaxe “da aviação” expressa a ordem de forma indireta. A sintaxe é preservada (concordância etc.) e o sentido não é segredo para ninguém. Para os falantes que dizem “fume na área permitida” e “o técnico está previsto para chegar” não há segredo nenhum na interpretação. Só se vê nonsense nesses casos se não se considera o real funcionamento da língua.

Disponível em: <http://terramagazine.terra.com.br/blogdosirio>. Acesso em: 20 fev. 2019.

Corrobora a argumentação desenvolvida por Possenti a ocorrência, normalmente aceita, da construção

  • “Cortei o cabelo com o melhor cabeleireiro do bairro”, em que o agente da ação verbal não coincide com o sujeito da oração.
  • “Os menino chegou cedo”, que, do ponto de vista da gramática descritiva, economiza marcas flexionais dispensáveis à compreensão do que se diz.
  • “Vende-se casas”, em que o falante tende a identificar “casas” como objeto direto, e não como sujeito, devido à sua posposição em relação ao verbo.
  • “Há vagas disponíveis”, que não viola as regras de concordância do português padrão, embora o verbo, no singular, não concorde com seu sujeito, no plural.
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