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#1622273
Texto da Questão:


Ai de ti, Ipanema

       Há muitos anos, Rubem Braga começava assim uma de suas mais famosas crônicas: “Ai de ti, Copacabana, porque eu já fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste; porém minha voz te abalará até as entranhas.” Era uma exortação bíblica, apocalíptica, profética, ainda que irônica e hiperbólica. “Então quem especulará sobre o metro quadrado de teu terreno? Pois na verdade não haverá terreno algum.”

             Na sua condenação, o Velho Braga antevia os sinais da degradação e da dissolução moral de um bairro prestes a ser tragado pelo pecado e afogado pelo oceano, sucumbindo em meio às abjeções e ao vício: “E os escuros peixes nadarão nas tuas ruas e a vasa fétida das marés cobrirá tua face”.

           A praia já chamada de “princesinha do mar”, coitada, inofensiva e pura, era então, como Ipanema seria depois, a síntese mítica do hedonismo carioca, mais do que uma metáfora, uma metonímia.

           No fim dos anos 50, Copacabana era o éden não contaminado ainda pelos plenos pecados, eram tempos idílicos e pastorais, a era da inocência, da bossa nova, dos anos dourados de JK, de Garrincha. Digo eu agora: Ai de ti, Ipanema, que perdeste a inocência e o sossego, e tomaste o lugar de Copacabana, e não percebeste os sinais que não são mais simbólicos: o emissário submarino se rompendo, as águas poluídas, as valas negras, as agressões, os assaltos, o medo e a morte.


(Adaptado de: VENTURA, Zuenir. Crônicas de um fim de século. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999, p. 166/167) 

Os títulos de crônica “Ai de ti, Copacabana” e “Ai de ti, Ipanema” estão aqui associados com a justificativa de que seus autores, 

  • frequentando um mesmo gênero literário, marcam-no pela solenidade retórica e pelo moralismo de fundamentação bíblica.
  • sendo vizinhos de bairros cariocas, testemunham o desenvolvimento destes, em que a vida pacata de outrora deu lugar a uma febril agitação cultural.
  • constatando que antigos redutos de tranquilidade e de fermentação inspiradora tenham sofrido um tão radical aviltamento, maldizem esse processo.
  • irmanando-se num mesmo sentimento primitivista, acusam o progresso tecnológico de impossibilitar a plena fruição de uma vida mais natural.
  • identificando-se num mesmo ideal de simplicidade e pureza, lamentam que seus ofícios lhes tenham incutido uma espécie de perversão moral.
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