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#1622437
Texto da Questão:


Ai de ti, Ipanema

       Há muitos anos, Rubem Braga começava assim uma de suas mais famosas crônicas: “Ai de ti, Copacabana, porque eu já fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste; porém minha voz te abalará até as entranhas.” Era uma exortação bíblica, apocalíptica, profética, ainda que irônica e hiperbólica. “Então quem especulará sobre o metro quadrado de teu terreno? Pois na verdade não haverá terreno algum.”

             Na sua condenação, o Velho Braga antevia os sinais da degradação e da dissolução moral de um bairro prestes a ser tragado pelo pecado e afogado pelo oceano, sucumbindo em meio às abjeções e ao vício: “E os escuros peixes nadarão nas tuas ruas e a vasa fétida das marés cobrirá tua face”.

           A praia já chamada de “princesinha do mar”, coitada, inofensiva e pura, era então, como Ipanema seria depois, a síntese mítica do hedonismo carioca, mais do que uma metáfora, uma metonímia.

           No fim dos anos 50, Copacabana era o éden não contaminado ainda pelos plenos pecados, eram tempos idílicos e pastorais, a era da inocência, da bossa nova, dos anos dourados de JK, de Garrincha. Digo eu agora: Ai de ti, Ipanema, que perdeste a inocência e o sossego, e tomaste o lugar de Copacabana, e não percebeste os sinais que não são mais simbólicos: o emissário submarino se rompendo, as águas poluídas, as valas negras, as agressões, os assaltos, o medo e a morte.


(Adaptado de: VENTURA, Zuenir. Crônicas de um fim de século. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999, p. 166/167) 

O gênero da crônica frequentado tão criativamente por Rubem Braga é um exemplo alto de

  • discurso contemporâneo comunicativo, aberto a formas variadas de interação com os leitores, prenunciando assim o caráter democrático da nova arte de tendência inclusiva.
  • estilo sublime, disposto a exprimir com a devida solenidade as oscilações angustiosas do espírito moderno, marcado pelo artificialismo dos mais típicos hábitos burgueses.
  • modalidade ficcional disposta a se deixar conduzir sobretudo pela paródia e pela ironia que acentuam seu caráter de irredutível crítica dos valores conservadores.
  • texto jornalístico capaz de ir além da pura informação, já que esse autor só se vale dela para ultrapassá-la e atingir a qualidade especulativa dos ensaios sociológicos.
  • prosa moderna carregada ao mesmo tempo de sentimento poético, impulso reflexivo, melancolia e lúcida observação crítica de fatos e personagens da vida real.
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