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#1734268
Texto da Questão:

      Embora o meu vocabulário seja voluntariamente pobre – uma espécie de Brasileiro Básico – a única leitura que jamais me cansa é a dos dicionários. Variados, sugestivos, atraentes, não são como os outros livros, que contam sempre a mesma estopada* do começo ao fim. Meu trato com eles é puramente desinteressado, um modo disperso de estar atento... E esse meu vício é, antes de tudo, inócuo para o leitor.

      Na minha adolescência, todo e qualquer escritor se presumia de estilista, e isso, na época, significava riqueza vocabular... Imagine-se o mal que deve ter causado a autores novos e inocentes o grande estilista Coelho Neto: grande infanticida, isto é o que ele foi.

      Orgulhamo-nos, como das nossas riquezas naturais, da opulência verbal de Rui Barbosa. O seu fraco, ou o seu forte, eram os sinônimos. (...)

      *aquilo que é maçante, enfadonho, aborrecedor.

(Adaptado de: QUINTANA, Mário. Dicionários. Caderno H. 7. ed. São Paulo: Globo, 1998, p.176) 

Do texto, pode-se depreender a contraposição feita entre

  • o período da adolescência, em que não se sabe ainda dar o devido valor às palavras, e a maturidade, em que se adquire a capacidade de reconhecer um grande escritor justamente por conta das palavras que ele emprega.
  • a leitura desinteressada dos dicionários, que não tem reflexo imediato na produção escrita, e a procura de palavras difíceis e raras para conferir ao texto um estilo pomposo e supostamente mais nobre.
  • um vício inocente, como a leitura de dicionários para passar o tempo, e vícios que podem ser transmitidos dos adultos para as crianças, levando-as ao uso de substâncias que causam dependência e podem mesmo levá-las à morte.
  • a leitura de livros que contam sempre a mesma história maçante e a leitura de livros que, devido ao vocabulário variado e sugestivo, podem ser ao mesmo tempo interessantes e tão importantes para o aprendizado como a leitura dos dicionários.
  • a influência prejudicial de Coelho Neto sobre os novos escritores, ainda que fosse considerado um grande estilista, e o grande exemplo de Rui Barbosa, cuja expressão era tão rica como a nossa natureza.
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