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#2016634
Texto da Questão:

Atenção: A questão refere-se ao texto abaixo, atribuído a um dos heterônimos de Fernando Pessoa, Álvaro de Campos. 


 DATILOGRAFIA


Traço, sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,

Firmo o projeto, aqui isolado,

Remoto até de quem eu sou.


Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,

O tique-taque estalado das máquinas de escrever.

Que náusea da vida!

Que abjeção esta regularidade!

Que sono este ser assim!


Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros

(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),

Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,

Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,

Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.


Outrora.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,

O tique-taque estalado das máquinas de escrever.


Temos todos duas vidas:

A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,

E que continuamos sonhando, adultos, num substrato

                                                                          [de névoa;

A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,

Que é a prática, a útil,

Aquela em que acabam por nos meter num caixão.


Na outra não há caixões, nem mortes,

Há só ilustrações de infância:

Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;

Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.

Na outra somos nós,

Na outra vivemos;

Nesta morremos, que é o que viver quer dizer;

Neste momento, pela náusea, vivo na outra...


Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,

Ergue a voz o tique-taque estalado das máquinas de

                                                                        [escrever. 

 Para responder à questão, considere também o texto de Ruffato. 




Acerca da incorporação feita por Ruffato de alguns versos desse poema, afirma-se corretamente: 

  • ao extrair os versos de seu contexto e com isso ocultar a informação de que a verdadeira vida se dá na infância, Ruffato faz um aproveitamento incorreto e inapropriado das ideias de Álvaro de Campos.
  • a citação literal, sem adaptações aos versos de Pessoa, mostra a atitude de reverência de Ruffato, que considera irretocáveis tanto os textos de Pessoa quanto as “autópsias” e “recortes” que eles já sofreram.
  • o uso de aspas e de barras inclinadas para separar os versos impede que eles sejam percebidos como tais no texto de Ruffato e prejudica a depreensão de seu conteúdo.
  • grave ofensa à ética relativa aos direitos autorais, a ausência de menção ao fato de que os versos são de Álvaro de Campos induz o leitor a pensar que o próprio Ruffato os compôs.
  • ao inserir os versos em seu texto, Ruffato enfatiza a oposição entre vida verdadeira e vida simulada, que, no poema, está associada à oposição entre vida infantil e vida adulta.
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