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#2015807
Texto da Questão:

      A Gazeta comentou hoje, com fina malícia, uma publicação do Diário Oficial, contendo a lista de todas as patentes de invenção que caíram em caducidade. É realmente interessante a relação dessas “invenções”, que os inventores, desenganados ou desprotegidos, não quiseram ou não puderam explorar: máquinas de beneficiar café, instrumentos de música, selins, carvão, mobílias, dentaduras, carros, tintas, caixões para defuntos, acendedores instantâneos, e que sei mais? não houve ramo de indústria em que o gênio dos “inventores” não se exercitasse.

      A mania de inventar é uma das mais espalhadas. [...]

      Ah! pobre alma humana, sempre devorada por sonhos torturantes, sempre incendida em desejos e ambições ardentes! “Inventar” é a grande e fúlgida Quimera... Inventar é criar: quem inventa é, mais ou menos, o rival de Deus, o êmulo das forças vivas da natureza. Inventar é reproduzir a aventura arrojada de Prometeu: é roubar ao céu um pouco do seu segredo, é entrar em competência com a Divindade, é afrontar a força criadora e misteriosa que rege o universo ... Ousado e rútilo sonho!...

      Desses pobres inventores, desses infelizes filhos e continuadores do Prometeu antigo, quantos acabam desiludidos ou loucos no catre do hospital ou na cela do manicômio! Mas quem haverá que ouse rir dessa loucura ou dessa miséria? A mania da “invenção” é a prova palpável, a demonstração cabal e irrecusável da força da alma humana – dessa mártir encarcerada que vive a bracejar no duro cárcere, querendo partir os liames que a cativam, querendo libertar-se de sua penúria moral, querendo voar e devassar os segredos da vida. Essa doença é o Ideal!

      Confesso que, lendo a relação de patentes publicada pelo Diário Oficial, não tenho a coragem de sorrir. O sentimento, que essa leitura me inspira, é uma mistura de tristeza e de admiração: tristeza pela inanidade dos nossos sonhos, e admiração pelo incansável aspirar, pela ânsia infinita, pela sagrada e perpétua revolta da alma humana contra a sua miséria, e pelo seu eterno desejo de saber, de compreender, de criar, de caminhar para a luz...

                (Olavo Bilac. Obra reunida. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996. p. 490)

Em relação ao 3° parágrafo, é correto afirmar que

  • há crítica acentuada do autor, descrente da alma humana, no sentido de que o homem, desde a antiguidade, entrou em concorrência com as forças divinas, sem medir as consequências desastrosas de seus atos impensados.
  • se observa intencional interrupção do fluxo de ideias que vêm sendo apresentadas, para introdução de elementos alheios a esse desenvolvimento, marcados por ironia, assinalada no emprego reiterado de certos vocábulos.
  • ocorre uma alteração na forma de exposição de ideias, e o autor passa a se valer de um vocativo para desenvolver seu pensamento sobre as características do ser humano, em eterna luta contra suas limitações terrenas.
  • o autor acata a fina malícia do comentário apresentado em um jornal, reproduzindo-a, ao expor suas ideias sobre o insaciável desejo do homem, que sempre buscou superar o secreto poder divino de criação.
  • é possível depreender certo desencanto do autor, pois a alma humana nem sempre consegue concretizar seus devaneios por ser limitado seu poder de criação, ainda que se constate grande número de invenções na história da humanidade.
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