AS QUESTÕES DE 1 A 10 ESTÃO RELACIONADAS AO TEXTO ABAIXO
Quando o sentido é subvertido
O consumismo, isto é, a compra exagerada, a acumulação irrestrita e a substituição precoce
dos bens de consumo é uma marca da nossa sociedade. A sedução e o efêmero orientam a frenética
renovação do que existe e a criação de novas necessidades. Entre outros problemas, essa dinâmica
gera a exploração predatória dos recursos naturais, o sofrimento dos animais não humanos, a
naturalização do desperdício e a supressão da singularidade do indivíduo.
Atualmente, a mentalidade consumidora infiltrou-se nos relacionamentos, na espiritualidade,
na política e até na ordenação do tempo disponível. Assim, de modo geral, as pessoas têm suas vidas
mercantilizadas, isto é, orientadas pelos princípios e lógica do mercado. Portanto não é de se
estranhar que elas busquem nos bens de consumo, dentre outras coisas, a resposta às suas questões
existenciais.
Uma característica do ethos consumista atual é o que Gilles Lipovetsky denomina consumo
experiência. Três dos seus aspectos são: 1) a busca por aventuras em locais que prometem o
inesperado sem abrir mão do conforto e da segurança; 2) a procura por sensações novas nas
mercadorias; e 3) a conquista da harmonia interior sem esforço e de modo imediato. Entretanto, os
produtos e serviços que se enquadram nesse tipo de consumo, quando não esvaziam o sentido do que
é vendido, o subvertem. Para mostrar isso, devemos pensar a razoabilidade destes para além do viés
empreendedor-consumista. Vejamos alguns exemplos.
Creio que todos já fizeram ou ouviram falar em piquenique. Pois bem, na cidade de São
Paulo, um local vende a ideia dessa experiência sem inconvenientes e sem preocupações, que pode
ser um ambiente com paredes decoradas, um teto feito com guarda-chuvas coloridos, algumas mesas
de madeira postadas sobre uma grama artificial. A cesta de alimentos é fornecida pela própria casa.
Mas será que este serviço entrega o que promete?
Neste espaço, não precisamos planejar nada, não tomaremos uma eventual chuva, estaremos
mais protegidos de um assalto e sequer nos preocuparemos com formigas que possam nos picar.
Porém, é fato que isso subverte a experiência do piquenique, na medida em que a empobrece e a
reduz enormemente. Ora, a graça do piquenique está nas descobertas que um ambiente não
controlado proporciona, no planejamento do que levar, no pé na terra ou na grama real - enfim, é o
contato com a natureza. Colocando de outra forma, esse tipo de serviço subverte a aventura real, pois
o sentido dessa conflita com o que é controlado e seguro. Desse modo, esse piquenique não passa de
um simulacro.
O segundo aspecto do consumo experiencial é refletido pela onda gourmetizadora, que
chegou até à pipoca! A versão gourmet da pipoca tem diversos sabores, vem dentro de latas
decoradas, é exposta em carrinhos bem acabados e custa, muitas vezes, muito mais que a
convencional. Na página de uma das marcas desse produto (procure no Google por pipoca gourmet),
a criadora diz que pensou em proporcionar ao freguês uma experiência diferenciada, não só através
da pipoca, mas também por meio de uma embalagem que envolve e encanta o cliente.
Embora especiarias tenham sido adicionadas e a apresentação da pipoca seja diferente, isso
não é razoável. Primeiramente porque você vai consumir um produto frio e que não é fresco, pois não
é feito na hora. Ao criar-se uma atmosfera mágica em torno da pipoca, vende-se algo que esta não
pode entregar, pois os signos e imagens a ela associados excedem as suas qualidades efetivas. Mais
que isso, a versão gourmet não é superior à convencional, ela é apenas diferente. Desse modo, como
na maioria dos produtos gourmetizados, o conceito excede o produto.
O mercado também atende àqueles que querem a solução dos seus conflitos e conforto
psíquico de modo rápido e fácil. A proliferação dos livros de autoajuda nas livrarias, que lotam as
prateleiras e têm um lugar de destaque, é um exemplo disso. Em geral, duas são as ideias implícitas
nos livros de autoajuda: a) receitas de felicidade e sucesso podem ser compradas e; b) seguindo o
ensinamento destes livros, o sujeito, por meio da sua vontade, vai saber lidar e solucionar os
problemas que o atingem.
Talvez os manuais de autoajuda sirvam como paliativos - mas, eles não podem entregar o
que prometem, pois esquemas prontos não respondem à singularidade do indivíduo. Ao venderem a
ideia de que a conquista da felicidade só depende do leitor, não se considera que o sujeito está imerso
num contexto onde existem variáveis que atuam em sua vida e que podem não serem controladas.
Em parte, o consumo experiencial explica-se como um sintoma de uma sociedade que
almeja a euforia perpétua, legitima os simulacros publicitários, festeja toda e qualquer novidade
mercadológica, quer saúde física e mental rapidamente e sem esforço... Enfim, que procura a razão
do seu existir no mercado. Contudo, esses produtos e serviços não têm razoabilidade, tendo em vista
que se apropriam de atividades e ideias e as subvertem, espetacularizam o banal, e vendem a falsa
ideia que a felicidade pode ser comprada. Isso evidencia o empobrecimento subjetivo e a
heteronomia do sujeito nestas relações mercantis.
Quando o sentido é subvertido, Daniel Borgon. FILOSOFIA, Ciência & Vida, Ano IX, nº 120, p.72.
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