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#3644004
Texto da Questão:

Leia o texto 1 para responder a questão


O povo brasileiro, de Darcy Ribeiro (trecho)


    “O Brasil e os brasileiros, sua gestação como povo, é o que trataremos de reconstituir e compreender nos capítulos seguintes. Surgimos da confluência, do entrechoque e do caldeamento do invasor português com índios silvícolas e campineiros e com negros africanos, uns e outros aliciados como escravos.


     Nessa confluência, que se dá sob a regência dos portugueses, matrizes raciais díspares, tradições culturais distintas, formações sociais defasadas se enfrentam e se fundem para dar lugar a um povo novo (Ribeiro, 1970), num novo modelo de estruturação societária. Novo porque surge como uma etnia nacional, diferenciada culturalmente de suas matrizes formadoras, fortemente mestiçada, dinamizada por uma cultura sincrética e singularizada pela redefinição de traços culturais delas oriundos. Também novo porque se vê a si mesmo e é visto como uma gente nova, um novo gênero humano diferente de quantos existam.


      Povo novo, ainda, porque é um novo modelo de estruturação societária, que inaugura uma forma singular de organização socioeconômica, fundada num tipo renovado de escravismo e numa servidão continuada ao mercado mundial. Novo, inclusive, pela inverossímil alegria e espantosa vontade de felicidade, num povo tão sacrificado, que alenta e comove a todos os brasileiros. 


     Velho, porém, porque se viabiliza como um proletariado externo. Quer dizer, como um implante ultramarino da expansão europeia que não existe para si mesmo, mas para gerar lucros exportáveis pelo exercício da função de provedor colonial de bens para o mercado mundial, através do desgaste da população que recruta no país ou importa.


     A sociedade e a cultura brasileiras são conformadas como variantes da versão lusitana da tradição civilizatória europeia ocidental, diferenciadas por coloridos herdados dos índios americanos e dos negros africanos. O Brasil emerge, assim, como um renovo mutante, remarcado de características próprias, mas atado genesicamente à matriz portuguesa, cujas potencialidades insuspeitadas de ser e de crescer só aqui se realizariam plenamente.


      A confluência de tantas e tão variadas matrizes formadoras poderia ter resultado numa sociedade multiétnica, dilacerada pela oposição de componentes diferenciados e imiscíveis. Ocorreu justamente o contrário, uma vez que, apesar de sobreviverem na fisionomia somática e no espírito dos brasileiros os signos de sua múltipla ancestralidade, não se diferenciaram em antagônicas minorias raciais, culturais ou regionais, vinculadas a lealdades étnicas próprias e disputantes de autonomia frente à nação.”


Considerando os aspectos coesivos do texto, pode-se afirmar que:

  • O pronome “sua” (1ª linha do 1º parágrafo) tem um valor anafórico importante por retomar o termo “brasileiros” (1ª linha do 1º parágrafo), garantindo, assim, a coesão e mais riqueza informativa do texto;
  • O termo “uns e outros” (última linha do 1º parágrafo) pressupõe que o autor se refira a alguns “negros africanos” que foram forçados à escravidão em terras brasileiras, diferentes dos “índios silvícolas”;
  • Os termos “ainda” e “inclusive” (3º parágrafo do texto) funcionam como elementos de complementaridade à explicação de “povo novo” defendida pelo autor, em especial oposição ao conceito de “povo velho”, cuja demarcação se dá pelo uso de “porém” no início do parágrafo seguinte.
  • O marcador discursivo “assim” (em negrito no 5º parágrafo) pode ser retirado do texto sem alterar o sentido conclusivo do período.
  • O marcador discursivo “assim” (em negrito no 5º parágrafo) não pode ser retirado do texto sem alterar o sentido de consequência do período.
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