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#2244873
Texto da Questão:

Catar Feijão

Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
Água congelada, por chumbo seu verbo:
Pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
A pedra dar à frase seu grão mais vivo:
Obstrui a leitura fluviante, flutual,
Açula a atenção, isca-a com risco.

MELO NETO, João Cabral de. Melhores poemas João Cabral de Melo Neto.
Seleção Antonio Carlos Secchin. 10 ed. São Paulo: Global, 2010.

Das hipóteses abaixo levantadas para interpretação do poema, considerando a imanência textual, somente uma não pode ser comprovada no texto.

  • O trabalho do escritor, embora comparado com uma atividade simples como catar feijão, demonstra-se bem mais denso, o que se pode confirmar com o verso “Certo, toda palavra boiará no papel”.
  • A impessoalidade no poema é marcada pela presença de verbos no infinitivo como “catar”, “escrever”, “boiar”, “soprar” e por verbos na voz passiva sintética como “se limita”, “joga-se”.
  • A palavra “pedra” em todo o poema é usada como metáfora da dificuldade de atribuição de sentidos ao que se pretende ler em um texto poético.
  • Catar palavras em meio às pedras pode ser entendido como um trabalho denso do escritor para não deixar os sentidos muito perceptíveis pelo leitor.
  • O último verso do poema: “Açula a atenção, isca-o com o risco” pode ser associado ao sujeito-leitor do texto.
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