Minha mãe repete com uma certa frequência que eu vou
ser pra sempre o bebê dela — sem se preocupar com a
veracidade dessa promessa simbólica. Eu costumava
responder relutante: "Já sou bem grandinha", numa tolice
clássica. Até me encantava com o Peter Pan, mas me
sentia muito diferente dele — não via a hora de crescer!
Afinal, "não posso ficar nessa casa!". Eu reclamava
como qualquer pré-adolescente. E de fato, não podia
mesmo: nem bem eu queria, não podia pintar o cabelo,
não podia ouvir música alta. Ah, que tortura, a lição de
obediência...
Foi quando decidi pela desobediência. Uma decisão
incomum para a filha que nunca deu trabalho. Por quase
dois anos, menti dezenas de vezes para os meus pais,
coitados.
A rebeldia não durou muito, mas atendeu — e concordou
um pouco — com a raiz daquelas atitudes duvidosas:
não era rebeldia sem motivo. Era apenas a incerteza de
acreditar que crescer seria o fim dos meus problemas.
Os adultos me fizeram compreender melhor as
desvantagens da vida adulta. Recentemente, estava em
alta nas redes sociais por zombarem da CLT. Me parecia
uma tendência elitista e cínica dos trabalhadores, mas
que expressava inconsciente a percepção de que
jornadas exaustivas e um salário mínimo não valem o
esforço.
No auge dos meus 14 anos, não pensava nisso. Não
acreditava em fardas, mas em uma liberdade ilusória.
Mal podia imaginar que a vida nos oferece um número
limitado de escolhas, e que até elas podem se tornar
prisões. Hoje, peço humildemente: "Mãe, você pode me
dizer o que fazer?". E a sua resposta letal é: "A escolha é
sua".
KELLY, Sarah. A última vez em que não tive escolha. In:
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Livros Abertos USP: coletânea de
textos literários contemporâneos. São Paulo: Universidade de São
Paulo, 2022. Disponível em:
https://www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/view/1
691/1544/6178 . Acesso em: 4 nov. 2025.
O texto "A última vez em que não tive escolha" apresenta
uma narrativa de caráter intimista e reflexivo, construída
em linguagem acessível e marcada por traços de
oralidade e de afetividade. Considerando as noções de
variação linguística e níveis de linguagem, assinale a
alternativa que melhor interpreta o uso da língua no
texto.
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