Medidas consideradas intervencionistas já eram esperadas logo
nos primeiros dias de governo de Alberto Fernández, que tomou
posse como presidente da Argentina no dia 10 de dezembro de
2019. E foi justamente o que aconteceu.
No último fim de semana, ganharam as páginas dos jornais o
decreto do governo, instituindo, além do aumento dos custos
dos empregadores para demissão de funcionários, a elevação
dos impostos sobre as exportações de soja e grãos, como forma
de “enfrentar a grave situação das finanças públicas” do país
(segundo destaca o documento).
Com isso, o teto de taxação de 4 Pesos por Dólar definido pelo
governo do ex-presidente Maurício Macri perde o efeito e as
retenções ficam em 12%. O decreto de Fernández é aplicado
parcialmente para o trigo, o milho e a soja, que voltarão à taxa de
12%. Para a soja, principal produto de exportação, o índice se
somará aos 18% que já se pagavam. Desta forma, essa
exportação será taxada com 30% de seu preço.
As tarifas de exportação da Argentina, em uma base de doze
meses até novembro de 2019, representaram cerca de 1,6% do PIB do país, de acordo com cálculos feitos pelo Credit Suisse. O
governo aposta que, com a elevação das tarifas, haja mais
fundos para o seu pacote emergencial.
As medidas de Fernández, inclusive, têm o potencial de
reverberar por aqui. Afinal, o país vizinho é o principal fornecedor
de trigo para o Brasil – de acordo com o Ministério da
Agricultura, mais de 80% da commodity utilizado pelas indústrias
brasileiras vêm da Argentina.
Desta forma, a princípio, o anúncio poderia representar mais uma
fonte de pressão nos preços dos alimentos no Brasil, já que a
elevação das cotações do trigo pode ser repassada para
produtos que usam o insumo, como o pão francês.
Vale destacar que, no mês de novembro de 2019, a inflação
oficial brasileira medida pelo Índice Nacional de Preços ao
Consumidor Amplo (IPCA) e divulgada pelo Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE), mostrou uma aceleração de 0,51%
na comparação mensal, maior alta do mês desde 2015 e acima
do esperado. Quem guiou esse resultado foi a carne, cujo preço
disparou 8,09% de outubro para novembro de 2019 por conta da
escassez de proteína animal na Ásia, onde a demanda por
importações de carne suína, bovina e de frango aumentou. A
peste suína africana está dizimando rebanhos, reduzindo a oferta
e aumentando a exportação brasileira para a região.
Porém, conforme aponta a equipe de análise econômica da XP
Investimentos, a dimensão do impacto da medida da Argentina
sobre a inflação brasileira ainda é difícil de ser calculada, uma
vez que o Brasil poderia redirecionar suas compras para outros
países que também são grandes produtores do grão, como EUA
e Canadá.
EFEITO NAS EMPRESAS
Enquanto o cenário é incerto, algumas empresas brasileiras e
associações já se pronunciaram. Foi o caso da Marfrig Global
Foods (uma companhia de alimentos à base de proteína animal),
que possui operações na Argentina e afirmou que a taxação para
os produtos em geral não terá impacto material na geração de
resultado da companhia. O governo argentino aumentou para 9%
o imposto sobre as exportações de carne bovina. Antes, eram
cobrados 3 Pesos por Dólar exportado.
A companhia destacou que a receita líquida da operação da
empresa na Argentina representou apenas 3,6% da receita líquida
consolidada no período acumulado até setembro de 2019, sendo
que, desse montante, aproximadamente 50% é proveniente de
vendas no mercado doméstico, o que minimiza o impacto da
medida, enquanto outros 50% vieram de exportações.
“Aproximadamente 60% das receitas de exportações de carne
bovina da Marfrig, na Argentina, foi para China, um dos destinos
mais rentáveis do mundo dado o novo cenário global de
proteínas”, destacou em comunicado.
Por outro lado, com relação, especificamente, ao trigo e à soja, o
efeito da elevação dos tributos será estimular agricultores
argentinos a produzirem menos, conforme aponta a analista
Michaela Kuhl, do Commerzbank. “Para agricultores, o imposto
significa que eles ganham menos ao exportar seus produtos. Em
geral, isso significa que produzirão menos dos produtos em
questão”, destaca a analista.
Assim, qualquer recuo significativo na produção do país terá
efeito nos mercados globais, já que o país é o maior exportador
de farelo de soja e sexto maior exportador de trigo, segundo
dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos
(USDA).
Adaptado. Fonte: http://bit.ly/2EyfGFu.
Com base no texto 'Argentina eleva taxas sobre exportação',
leia as afirmativas a seguir:
I. É possível subentender-se, a partir do texto, que o decreto do
governo da Argentina é aplicado parcialmente para o trigo, o milho
e a soja, que voltarão à taxa de 12%. Para a soja, o índice se
somará aos 18% que já se pagavam e, assim, essa exportação será
taxada com 30% de seu preço.
II. No texto, a autora afirma que, de acordo com o Ministério da
Agricultura do Brasil, mais de 80% do trigo utilizado pelas indústrias
brasileiras vêm de países da América Central, como a Argentina, o
México e o Caribe. Ainda de acordo com a autora, o baixo acesso
dos produtores agrícolas desses países às novas tecnologias
produtivas é um fator que afeta negativamente a eficiência desses
fornecedores, elevando o preço do trigo e, assim, reduzindo a
competitividade das indústrias brasileiras.
III. O texto informa que, na perspectiva da equipe de análise
econômica da XP Investimentos, a dimensão do impacto da
medida da Argentina sobre a inflação brasileira ainda é difícil de ser
calculada, uma vez que o Brasil poderia redirecionar suas compras
para outros países que também são grandes produtores de trigo,
como EUA e Canadá.
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