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#2576612
Texto da Questão:

Escrevo estas linhas


      Escrevo estas linhas em agosto de 1943, depois da batalha de Stalingrado e da queda de Mussolini. É um livro de prosa, assinado por quem preferiu quase sempre exprimir-se em poesia. Esse suposto poeta não desdenha a prosa, antes a respeita a ponto de furtar-se a cultivá-la. Seria inútil repisar o confronto das duas formas de expressão, para atribuir superioridade a uma delas. Mas a verdade é que se a poesia é a linguagem de certos instantes, e sem dúvida os mais densos e importantes da existência, a prosa é a linguagem de todos os instantes, e há uma necessidade humana de que não somente se faça boa prosa como também que nela se incorpore o tempo, e com isto se salve esse último.

      Não há muitos prosadores entre nós que tenham consciência do tempo e saibam transformá-lo em matéria literária. Frequentemente a literatura se faz à margem do tempo ou contra ele – seja por incapacidade de apreensão, covardia ou cálculo. Daí o vazio e o desconforto do texto literário, como a insatisfação que ele desperta em cada vez mais descrentes leitores.

      Este livro começa em 1932, quando Hitler era candidato (derrotado) a presidente da República e termina em 1943, com o mundo submetido a um processo de transformação pelo fogo. Os que viveram em tal período terão de confessar-se transformados, mais sérios e esclarecidos, mais determinados quanto aos problemas fundamentais do indivíduo e da coletividade. Não lhes bastará fazer uso contínuo da palavra cultura ou da palavra justiça, mas antes devem contribuir com tudo o que tenham de bom para que essas palavras assumam seu conteúdo verdadeiro ou, então, sejam varridas do dicionário. E digo aos rapazes: Rapazes, se querem que a literatura tenha algum préstimo no mundo de amanhã, reformem o conceito de literatura. Reformem a própria capacidade de admirar e de imitar, inventem olhos novos ou novas maneiras de olhar, para merecerem o espetáculo novo de que estão participando.

(ANDRADE, Carlos Drummond de. Confissões de Minas. São Paulo: Cosac Naify, 2011, p. 11-13)

Apresentando seu livro de crônicas, Carlos Drummond de Andrade

  • encarece a importância desse gênero literário, julgando-o superior ao da poesia pelo fato de demandar maior precisão no emprego das palavras e na expressão dos sentimentos.
  • considera que a prosa distingue-se da poesia pelo fato de que a linguagem da primeira, aberta ao tempo contínuo da história, incorpora-o e problematiza-o mais diretamente.
  • destaca a vantagem que tem a prosa sobre a poesia, uma vez que só um prosador é capaz de dar expressão às paixões que os conflitos históricos despertam em seu espírito.
  • julga equivalentes os méritos da poesia e da prosa, embora ressalve que o gênero poético, por se aplicar sobre bem determinados instantes, traduz melhor certos eventos históricos.
  • equipara o valor literário da boa prosa ao da boa poesia, julgando que ambos os gêneros são igualmente eficazes para denunciar atrocidades como as praticadas durante a II Guerra.
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