O escritor argentino Jorge Luís Borges, que não era muito
simpático à etimologia, apontou a inutilidade de saber que a
palavra cálculo veio do latim “calculus”, pedrinha, em referência
aos pedregulhos usados antigamente para fazer contas.
Tal conhecimento, argumentou o genial autor de “A Biblioteca
de Babel”, não nos permite “dominar os arcanos da álgebra”.
Verdade: ninguém aprende a calcular estudando etimologia.
O que Borges não disse é que o estudo da história das
palavras abre janelas para como a linguagem funciona, como
produz seus sentidos, que de outro modo permaneceriam
trancadas. É pouco?
Exemplo: a história de “calculus” não ensina ninguém a fazer
contas, mas a do vírus ilustra muito bem o mecanismo
infeccioso que opera dentro dos – e entre os – idiomas.
O latim clássico “virus”, empregado por Cícero e Virgílio, é a
origem óbvia da palavra sob a qual se abriga a apavorante
covid-19. Ao mesmo tempo, é uma pista falsa.
Cícero e Virgílio não faziam ideia da existência de um troço
chamado vírus. Este só seria descoberto no século 19, quando
o avanço das ciências e da tecnologia já tinha tornado moda
recorrer a elementos gregos e latinos para cunhar novas
expressões para novos fatos.
Contudo, a não ser pelo código genético rastreável em
palavras como visgo, viscoso e virulento, fazia séculos que o
“virus” latino hibernava. Foi como metáfora venenosa que, já às
portas do século 20, saiu do frigorífico clássico para voltar ao
quentinho das línguas.
Em 1898, o microbiologista holandês Martinus Beijerink
decidiu batizar assim certo grupo de agentes infecciosos
invisíveis aos microscópios de então, com o qual o francês
Louis Pasteur tinha esbarrado primeiro ao estudar a raiva.
O vírus nasceu na linguagem científica, mas era altamente
contagioso. Acabou se tornando epidêmico no vocabulário
comum de diversas línguas. O vírus da palavra penetrou no
vocabulário da computação em 1972, como nome de
programas maliciosos que se infiltram num sistema para,
reproduzindo-se, colonizá-lo e infectar outros.
No século 21, com o mundo integrado em rede, deu até num
verbo novo, viralizar. Foi a primeira vez que um membro da
família ganhou sentido positivo, invejável: fazer sucesso na
internet, ser replicado em larga escala nas redes sociais.
Mesmo essa acepção, como vimos, tinha seu lado escuro,
parente de um uso metafórico bastante popular que a palavra
carrega há décadas. No século passado, tornou-se possível
falar em “vírus do fascismo”, por exemplo. Ou “vírus da burrice”.
Antigamente, quando se ignorava tudo sobre os vírus, uma
receita comum que as pessoas usavam para se proteger do
risco de contrair as doenças provocadas por eles era rezar. Está
valendo.
(Sérgio Rodrigues. O vírus da linguagem. Folha de S.Paulo, 12.03.2020. Adaptado)
“O escritor argentino Jorge Luís Borges, que não era
muito simpático à etimologia...” (1º par.). Nota-se, no
fragmento acima, uma expressão que se valeu do uso da
Crase. Assinale a alternativa cujo uso se deu pelo mesmo
motivo do que ocorreu na passagem em evidência.
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