O homem da loja vizinha invadiu a sala de aula, gritando
que os rapazes do “Lar” lhe tinham roubado um rádio.
O Lar abrigava adolescentes, sem família e sem casa,
que acabavam por o abandonar, passado algum tempo, preferindo andar pelas ruas, nas companhias não impostas.
Colérico, o homem insultava-os, derramando toda a raiva
armazenada contra os pequenos delinquentes que, volta e
meia, se metiam com ele, mais para o enfurecer do que para
o roubar. Pelo menos não tínhamos conhecimento de nenhum
roubo, na região, que envolvesse os nossos rapazes.
Não faziam um gesto sequer para se defenderem do
que o comerciante dizia, limitando-se a olhar para um lado
e para o outro, como se estivessem a assistir a um jogo de
pingue-pongue. Dei comigo tentando seguir os seus olhares
e, quando voltei a atenção para o homem, vi que não tinha
ouvido as suas falas finais. Pensei que era um exercício que
utilizavam para não se chatearem. Possivelmente, quando
eu falava, também olhavam para um nada, num truque anti-
-chatice. Fiquei furiosa com a descoberta: afinal estava aí a
gastar muito do meu tempo, da minha energia, das minhas
emoções, e os rapazes desprezavam o que eu dizia!
Voltou-se-me o bom senso a tempo de ouvir o final da
revolta do homem da loja.
Prometi-lhe procurar o rádio e devolver-lho, caso o encontrasse, e dei a aula por terminada, no silêncio construído.
(Dina Salústio, “Ele queria tão pouco”. Mornas eram as noites. 2002. Adaptado)
Assinale a alternativa que atende à norma-padrão de
colocação pronominal
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