O texto seguinte servirá de base para responder à questão.
A saudade como motor criativo da literatura
Luciana de Gnone
A saudade é mais do que um sentimento de falta, ela é
também um dos grandes impulsionadores da literatura.
Para os leitores, os livros muitas vezes saciam a
nostalgia de vivências passadas. Para os escritores, a
saudade é uma grande aliada da criação: molda
lembranças, revive experiências e são fios condutores de
grandes narrativas. Na literatura, a saudade é
matéria-prima. Ela é capaz de transformar a ausência em
presença e memória em palavras.
São inúmeras as razões que levam os autores a
transformar a saudade em narrativa. Há motivações
políticas, como as dos exilados e refugiados. Existem os
gatilhos emocionais, como a migração em busca de
novas terras, ou mesmo o luto em suas inúmeras
facetas. Em todos esses casos, a escrita se oferece
como território aconchegante para reconstruir o que foi
perdido.
No início da década de 1990, morei por um ano nos
EUA. Estava no final do ensino médio e fui fazer um
intercâmbio cultural. Em uma cidade do interior de
Michigan, estudantes estrangeiros eram facilmente
reconhecidos pela comunidade local. Éramos cinco
intercambistas, digamos, "oficiais" — aqueles que
estavam de passagem por um período determinado,
geralmente de um ano. Mas havia também algumas
dezenas de outros estrangeiros, residentes
permanentes.
Eram todos filhos de imigrantes: alguns de primeira,
outros de segunda geração nascida na América. Dentre
eles, havia um menino que se destacava por ser um
exilado de guerra. Embora tivesse entrado nos EUA
como intercambista, assim como eu, havia chegado dois
anos antes e permanecido indefinidamente. Foi acolhido
pela família americana quando a guerra na Bósnia teve
início, em 1992, sem jamais conseguir retornar ao seu
país.
Ele não fazia ideia de como sua família estava. Não tinha
notícias dos pais, dos irmãos, nem de qualquer outro
parente. As informações simplesmente não chegavam.
Canalizou toda a saudade — e também o medo — na
escrita. Suas redações logo ficaram conhecidas na
escola. Não me lembro do nome dele, infelizmente, o
que é uma pena — é bem possível que tenha se tornado
autor.
Escrever sobre o que ficou para trás é uma forma de
habitar novamente o que já não está ao alcance. Ainda
que em escala muito diferente da vivida pelo colega
bósnio, posso dizer que algo semelhante aconteceu
comigo, ao viver por quase treze anos fora do Brasil.
A distância física e emocional foi o estopim para que eu começasse a escrever — primeiro de forma
despretensiosa; depois, o meu primeiro romance. A
escrita tornou-se uma ferramenta de reconexão com
minhas origens. Ao criar personagens e, principalmente,
cenários, eu buscava reconstruir minhas próprias
vivências, tentando suprir a saudade que sentia da
minha terra.
Muitas vezes a saudade pode vir com uma enorme carga
de desconforto, mas é preciso reconhecer a potência
desse sentimento. É divino poder usar a saudade para
revisitar o passado, questionar o presente e escrever o
futuro. É um recurso para preencher lacunas e curar-se
da ausência. Por essa razão, tantas obras nascem desse
vazio. É nesse espaço que o escritor encontra liberdade
criativa.
No gênero policial, muitos protagonistas são
apresentados como pessoas disfuncionais — marcados
pela saudade de uma família perdida, de um amor
desfeito ou de um luto mal resolvido. Quebrar essa casca
e revelar a vulnerabilidade do personagem é o que
provoca conexão com o mundo real. A saudade é esse
fragmento entre o que se viveu e o que continua a pulsar
dentro de nós.
Analise as sentenças a seguir a partir da leitura do texto:
I.Para Luciana de Gnone, a saudade exerce dois papéis
distintos no contexto da literatura: um de tocar em
memórias daqueles que leem uma obra e outro de ser
substância principal no processo de escrita.
II.A literatura impulsionada pela saudade está ancorada
em dois temas: política e emoções, pois é nesses
campos que se encontra acolhida para reconstruir o que
se perdeu ao longo da vida.
III.O que impulsionou a autora do texto a começar a
escrever foi ter conhecido a história do intercambista
bósnio que, exilado, usou a escrita para canalizar a
saudade que sentia da família, assim como a falta de
notícias.
É correto o que se afirma em:
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