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#1810913

Hoje não escrevo
         Chega um dia de falta de assunto. Ou, mais propriamente, de falta de apetite para os milhares de assuntos.       Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras se reunindo com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália, purê de palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário.       O que você perde em viver, escrevinhando sobre a vida. Não apenas o sol, mas tudo que ele ilumina.          [...]       E então vem o tédio. De Senhor dos Assuntos, passar a espectador enfastiado de espetáculo. Tantos fatos simultâneos e entrechocantes, o absurdo promovido a regra de jogo, excesso de vibração, dificuldade em abranger a cena com o simples par de olhos e uma fatigada atenção. Tudo se repete na linha do imprevisto, pois ao imprevisto sucede outro, num mecanismo de monotonia explosiva. Na hora ingrata de escrever, como optar entre as variedades de insólito? E que dizer, que não seja invalidado pelo acontecimento de logo mais, ou de agora mesmo? [...] Entretanto, aí está você, casmurro e indisposto para a tarefa de encher o papel de sinaizinhos pretos. [...]
Disponível em: <https://www.blogderocha.com.br/hoje-nao-escrevo-carlos-drummond-de-andrade/>. Acesso em: 25 mar. 2023.
Carlos Drummond de Andrade, nome indispensável para a história da Literatura Brasileira, é autor do texto “Hoje não escrevo”, que se configura como sendo:

  • Uma crônica, cujo narrador-cronista volta o olhar para seu próprio cotidiano de escritor, falando das dificuldades e dos desafios de escrever, ou seja, se utiliza da crônica para escrever sobre ela, empregando a metalinguagem.
  • Uma prosa poética, pois o trabalho com a linguagem apresenta um sentido conotativo, em que o olhar lírico se volta ao universo da arte de escrever, nem sempre inspiradora e feliz.
  • Um texto autobiográfico, cujo objetivo é sensibilizar os leitores sobre as fragilidades ou falta de assunto que um escritor pode encontrar quando se pensa na relação dialógica entre autor-texto-leitor.
  • Um conto, porque o narrador se vê intrigado com as artimanhas que envolvem a escrita ficcional, contudo consegue utilizar uma linguagem simples, leve, com subjetividade e fantasia, trazendo para o centro do texto os paradoxos que envolvem a arte literária.
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