Por que não gosto de eleições
Gosto da democracia em seu exercício cotidiano e
concreto. Prezo a discussão numa associação de moradores de
vila para discutir se é melhor pedir mais postes de luz ou asfalto
na rua central. Aprecio uma reunião de condomínio em que uma
senhora idosa e sozinha defende seu cachorrinho contra a mãe
de uma criança asmática e alérgica aos pêlos de animais. Em
ambos os casos, sinto carinho pelo esforço de inventar formas
possíveis de convivência.
Ultrapassamos o tamanho das comunas medievais, e
hoje um governo democrático só pode ser representativo: as
eleições são inevitáveis. Mas não me digam que elas são a
melhor expressão da democracia.
A retórica eleitoral parece implicar inelutavelmente duas
formas de desrespeito, paradoxais por serem ambas inimigas
da invenção democrática.
Há o desrespeito aos eleitores, que é implícito na
simplificação sistemática da realidade. Tanto as promessas
quanto a crítica às promessas dos adversários se alimentam
numa insultuosa infantilização dos votantes: “Nós temos razão,
o outro está errado; solucionaremos tudo, não há dúvidas nem
complexidade; entusiasmem-se”.
E há o desrespeito recíproco entre os candidatos. As
reuniões de moradores de vila ou de condomínio não poderiam
funcionar se os participantes se tratassem como candidatos a
um mesmo cargo eleitoral. Paradoxo: o processo eleitoral parece
ser o contra-exemplo da humildade necessária para o exercício
da democracia que importa e que deveria regrar as rela-
ções básicas entre cidadãos – a democracia concreta.
Em 1974, na França, Mitterrand, socialista, concorria à
Presidência com Giscard d´Estaing, centrista. Num debate decisivo,
Mitterrand falava como se ele fosse o único a enternecerse
ante o destino dos pobres e deserdados. Giscard retrucou:
“Se-nhor Mitterrand, o senhor não detém o monopólio do
coração”. Cansado de simplificações, o eleitorado gostou, e
Mitterrand perdeu.
(Contardo Calligaris, Terra de ninguém)