Eu deveria ter uns 6 anos, no máximo. Foi meu
primeiro dia de aula no colégio, lá no Meier, onde a
minha mãe me levou, pela Rua 24 de maio, coberta
de folhas de mangueira que o vento derrubava. Fiquei
sozinho, desamparado, sem pai nem mãe no colégio
desconhecido. No pátio do recreio, as crianças
corriam. Uma bola de borracha voou em minha
direção e bateu em meu peito. Olhei e vi uma menina
morena, de tranças com olhos negros, bem perto me
pedindo a bola, nesse segundo, eu me apaixonei.
Lembro-me de que seu queixo tinha um pequeno
machucado, como um arranhão com mercúrio-cromo,
lembro-me que ela tinha um nariz arrebitado,
insolente e que, num lampejo, eu senti um tremor
desconhecido, logo interrompido pelo jogo, pela bola
que eu devolvi pelos gritos e correria no recreio. Ela
deve ter me olhado no fundo dos olhos por uns três
segundos, mas, até hoje, eu me lembro de sua
expressão afogueada e vi que ela sentira também
algum sinal do corpo, alguma informação do seu
destino sexual de fêmea, alguma manifestação da
matéria, alguma mensagem do DNA. Recordando a
minha impressão de menino, tenho certeza de que os
nossos olhos viram a mesma coisa, um no outro.
Senti que eu fazia parte de um magnetismo da
natureza que me envolvia, que envolvia a menina,
que alguma coisa vibrava entre nós e senti que eu
tinha um destino ligado àquele tipo de ser, gente que
usava trança, que ria com dentes brancos e lábios
vermelhos, que era diferente de mim e entendi
vagamente que, sem aquela diferença, eu não me
completaria. Ela voltou correndo para o jogo, vi suas
pernas correndo e ela se virando com uma última
olhada.
Misteriosamente, nunca mais a encontrei naquela
escola. Lembro-me que me lembrei dela quando vi
aquele filme Love Story, não pelo medíocre filme,
mas pelo rosto de Ali Mcgraww, que era exatamente
o rosto que vivia na minha memória. Recordo
também, com estranheza, que meu sentimento infantil
foi de “impossibilidade”; aquele rosto me pareceu
maravilhoso e impossível de ser atingido
inteiramente, foi um instante mágico ao mesmo tempo
de descoberta e de perda. Escrevendo agora,
percebo que aquela sensação de profundo “sentido”
que tive aos 6 anos pode ter marcado minha maneira
de ser e de amar pelos tempos que viriam. Senti a
presença de algo belíssimo e inapreensível que, hoje,
velho de guerra, arrisco dizer que talvez seja essa a
marca do amor: ser impossível.[...]
O gênero crônica narrativa evidencia uma construção
textual relacionada a acontecimentos cotidianos.
Além dessa característica vista no texto acima,
também é possível identificar nele a seguinte
característica:
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