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#3104898
Texto da Questão:

O texto Ill serve de base para as questões de 8 a 10.


TEXTO III


Se determinado efeito, lógico ou artístico, mais fortemente se obtém do emprego de um substantivo masculino apenso a substantivo feminino, não deve o autor hesitar em fazê-lo. Quis eu uma vez dar, em uma só frase, a ideia — pouco importa se vera ou falsa — de que Deus é simultaneamente o Criador e a Alma do mundo. Não encontrei melhor maneira de o fazer do que tornando transitivo o verbo “ser”; e assim dei à voz de Deus a frase:

— Ó universo, eu sou-te, em que o transitivo de criação se consubstancia com o intransitivo de identificação.

Outra vez, porém em conversa, querendo dar incisiva, e portanto concentradamente, a noção verbal de que certa senhora tinha um tipo de rapaz, empreguei a frase “aquela rapaz”, violando deliberadamente e justissimamente a lei fundamental da concordância.

A prosódia, já alguém o disse, não é mais que função do estilo.

A linguagem fez-se para que nos sirvamos dela, não para que a sirvamos a ela.


PESSOA, Fernando. A língua portuguesa. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. p. 72-73. (Adaptado).

A partir da leitura do texto, só não se pode afirmar que a intenção do autor é a de:

  • Não propor a ruptura das convenções da linguagem, mas defender a capacidade de adequação dela.
  • Considerar que uma intenção pode romper com a tradição para se fazer entender.
  • Considerar a capacidade de adequação das regras algo natural às línguas, e que, por isso, temos que nos submeter às regras gramaticais.
  • Que a naturalidade das regras, em consonância com o movimento de progresso das línguas, deveria criar tratados linguísticos que não aprisionassem o modo de nos expressarmos.
  • Que, na hierarquia entre norma e linguagem, esta se sobrepõe aquela.
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