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#3404597

Leia o texto a seguir:

       Sírio Possenti (2009), no capítulo “Relações entre análise do discurso e leitura”, considera que há duas grandes vertentes nas quais a Análise do Discurso (AD) de linha francesa situa a leitura. Uma se dedica à investigação social de circulação dos textos, sem preocupação direta com o sentido, ou seja, seus interesses se fixam em quais textos  circulam, em quais espaços, em quais épocas, para quais leitores, por quais razões etc.; é-lhe relevante, por um lado, a adoção de posição de defesa de certas leituras, por estarem de acordo com um conjunto de exigências que comporiam a natureza histórica dos discursos e, de outro, a condenação de outras.       A segunda vertente de pesquisa, com certa relação com a psicanálise, privilegia propriamente o sentido; tem a ver com aquilo que o texto significa, com os sentidos “ocultos” que possam existir, pelo que lhe interessam os aspectos ligados aos implícitos, à opacidade da língua, à relação do discurso com o seu exterior etc.; é-lhe relevante explicitar as estratégias de leitura postas em ação em cada uma das interpretações.    Além disso, Possenti destaca a importância dos “ingredientes fundamentais da leitura”, que receberam, alternadamente, ao longo do tempo, em teorias diversas, a posição de elementos discursivamente fundamentais, mas cuja relevância, conforme o autor, só pode ser medida se levados em consideração os diferentes papéis que esses ingredientes podem exercer nos diferentes tipos de texto.

De acordo com Sírio Possenti (2009), quais são os pressupostos que fundamentam as relações entre a Análise do Discurso (AD) e a leitura e seus “ingredientes fundamentais”? 

  • Para a Análise do Discurso (AD), o sentido do texto se origina em grande parte das intenções do sujeito ou das regras por ele controladas, ou seja, por sua unidade, consciência e saber, o sentido é construído e gerido. Para a AD, o texto não tem sentido em si mesmo: tese defendida com base na ideia de que os textos têm numerosas leituras, o que permite configurar a liberdade do leitor, em que, como sujeito livre, é senhor dos sentidos que atribui ao texto. No entanto, essa liberdade pode ser restringida por fatores como o pertencimento a uma formação discursiva e a materialização do discurso em certo gênero, assim como a relação entre o texto e seu autor.
  • Para a Análise do Discurso (AD), o texto é o árbitro definitivo da leitura, desde que concebido discursivamente, ou seja, que seja tomado como submetido a todas as restrições históricas que normalmente o afetam, e que afetam, por conseguinte, o seu autor e o seu leitor. Para a AD, o sujeito que fala é compreendido como um efeito da história, da linguagemetc., e o leitor, cuja concepção é compatível com a de sujeito, também  está submetido às restrições do discurso. Nessa perspectiva, a leitura deve seguir alguns princípios como não ler um texto isoladamente, não considerar apenas o material verbal, nunca tratar a linguagem como transparente, não supor que o texto oferece todas as condições de sua leituraetc.
  • Para a Análise do Discurso (AD), o sentido do texto, por ser efeito dependente da enunciação, é concebido como resultado de ato individual e irrepetível; é um processo de apropriação individual da forma de linguagem, realizado sob a força do princípio egocêntrico de organização, que produz sentidos integralmente originais a cada nova enunciação, o que rechaça qualquer possibilidade de haver algum sentido fixo, imanente ou literal. Para a AD, cada vez que o sujeito-autor – pleno de sua centralidade, homogeneidade, unicidade e domínio da instância discursiva – se encontrar em ato de discurso, este sempre será novo e singular. Nesse processo, o sentido é produzido por aquele que lê, em um momento também sempre irrepetível.
  • Para a Análise do Discurso (AD), o sentido do texto, por ser efeito da enunciação, independe das posições enunciativas prévias aos atos singulares de enunciação. Embora as palavras possam trazer ecos de alguma situação enunciativa anterior, a “grande massa” dos efeitos de sentido é efetivamente uma realização livre, no presente do sujeito-autor. Ainda que, eventualmente, o sentido possa ser associado a alguma formação discursiva específica, isso não significa que ele esteja diante de fenômeno limitador de interpretações. Assim, o árbitro definitivo da leitura é o texto, mas sem atravessamentos discursivos e sem submissão a restrições externas, de maneira que caberá livremente ao leitor optar pela leitura que preferir, entre as muitas interpretações.
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