Quando é que uma mulher é realmente bonita? No
momento em que sai do cabeleireiro? Quando está numa
festa? Quando posa para uma foto? Clic, clic, clic. Sorriso
amarelo, postura artificial, desempenho para o público.
Bonitas mesmo somos quando ninguém está nos vendo.
Atirada no sofá, com uma calça de ficar em casa,
uma blusa faltando um botão, as pernas enroscadas uma na
outra, o cabelo caindo de qualquer jeito pelo ombro,
nenhuma preocupação se o batom resistiu ou não à longa
passagem do dia. Um livro nas mãos, o olhar perdido dentro
de tantas palavras, um ar de descoberta no rosto. Linda.
Caminhando pela rua, sol escaldante, a manga da
blusa arregaçada, a nuca ardendo, o cabelo sendo erguido
num coque malfeito, um ar de desaprovação pelo atraso do
ônibus, centenas de pessoas cruzando-se e ninguém
enxergando ninguém, ela enxuga a testa com a palma da
mão, ajeita a sobrancelha com os dedos. Perfeita.
O carro estacionado às pressas numa rua
desconhecida, uma necessidade urgente de chorar por causa
de uma música ou de uma lembrança, a cabeça jogada sobre
o volante, as lágrimas quentes, fartas, um lenço de papel
catado na bolsa, o nariz sendo assoado, os dedos limpando
as pálpebras, o retrovisor acusando os olhos vermelhos e
mesmo assim servindo de amparo, estou aqui com você, só
eu estou te vendo. Encantadora.
Fonte: Martha Medeiros. Adaptado.
As palavras sublinhadas abaixo podem ser substituídas,
respectivamente, sem alteração de sentido, por:
O carro estacionado às pressas numa rua desconhecida, uma
necessidade urgente de chorar por causa de uma música ou
de uma lembrança, a cabeça jogada sobre o volante, as
lágrimas quentes, fartas [...].
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