Responder a uma pergunta várias vezes, lidar com uma
crise de agressividade e insistir para que o ente querido se alimente ou tome banho. Esses são alguns dos desafios enfrentados por brasileiros que assumem a tarefa de cuidar de um
familiar idoso com demência. Na sua maioria, são mulheres,
mas há também homens, filhos e filhas ou netos e netas, que
se dedicam àqueles que precisam de ajuda, compreensão
e afeto.
Não raro, o peso dessa rotina implica angústia, estresse
e depressão, com o adoecimento de toda a família. Para
atenuar esse sofrimento, o Ministério da Saúde traz a boa
notícia de que está desenvolvendo um protocolo de terapia
em parceria com o Hospital Alemão Oswaldo Cruz, de São
Paulo. Batizado de Estratégias para Cuidadores em Demência (Escada), o projeto-piloto é uma adaptação do protocolo
britânico Start. Ou seja, foi testado e aprovado.
O Hospital Oswaldo Cruz treina agentes comunitários que replicam o protocolo junto dos cuidadores, que
passam por oito sessões, com suporte psicológico, nas
quais aprendem técnicas de manejo do estresse. O projeto está em andamento em Vitória (ES), Manaus (AM),
Chapecó (SC), Teresina (PI), Cuiabá (MT), Guarapuava (PR)
e Benevides (PA).
Os cuidadores são estimulados a refletir sobre o que é a
demência e como a sobrecarga do cuidado pode impactar a
sua saúde; a reconhecer os padrões de comportamento do
idoso e o seu próprio comportamento para evitar gatilhos e
reações negativas ou impulsivas; a fortalecer a comunicação com a pessoa com demência e com outros membros
da família; a evitar a solidão; a resgatar pequenos prazeres;
e a planejar o futuro. Não menos importante, há técnicas
de relaxamento, com exercícios de respiração, meditação
e alongamento.
O autocuidado, enfim, entrou na agenda do Sistema
Único de Saúde (SUS). Já não era sem tempo, haja vista que, segundo o Relatório Nacional sobre a Demência:
Epidemiologia, (Re)Conhecimento e Projeções Futuras,
divulgado pelo Ministério da Saúde em setembro do ano
passado, 8,5% da população com 60 anos ou mais convive
com a demência. São nada menos do que 1,8 milhão de
brasileiros idosos nessa condição. Para piorar, projetam-se
5,7 milhões de pessoas com demência na terceira idade
até 2050.
Tais números mostram que o projeto Escada é mais do
que bem-vindo. Com o avanço da expectativa de vida do
brasileiro, essa é uma política pública necessária. Oxalá
seu teste seja um sucesso e, em breve, essa iniciativa seja
replicada por todo o SUS, em todo o país. Só assim serão
garantidas saúde mental e qualidade de vida àqueles que
cuidam dos seus e precisam cuidar de si mesmos.