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#1986394
Texto da Questão:

                                        Usos da razão


      A imaginação, o que dizer a respeito dela? Meus livros estão aí para provar que eu a tenho. Mas é uma imaginação que está sempre a serviço da razão.

      Ou melhor: que aceita a prevalência da razão. Posso formular assim: a imaginação é o ponto de partida, mas o caminho a partir daí pertence à razão.

      Somos nós que nos afirmamos, por oposição ao comportamento dos animais, seres dotados de razão; por isso, não posso aceitar (e aí entra uma questão ética) que a razão seja usada contra a razão. Nesse sentido, uma razão que não é conservadora da vida, uma razão que não defende a vida, uma razão que (pondo a coisa num terreno mais prático, mais imediato) não se orienta para dignificar a vida humana, para respeitá-la, muito simplesmente para alimentar o corpo, para defender da doença, para defender de tudo o que há de negativo e que nos cerca, e que desgraçadamente é também produto da razão, é uma razão de que se faz um mau uso.

      Se o homem é um ser racional e usa a razão contra si mesmo – um contra si mesmo representado pelos seus semelhantes −, então de que é que serve a razão? Se ela não serve à ética, ela se transforma numa arma destrutiva.

(SARAMAGO, José. As palavras de Saramago. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 134/135) 

Está clara, coerente e correta a redação deste livre comentário sobre o texto:

  • Conquanto a imaginação seja importante para quem escreve, há vezes em que um texto seu chega mesmo a sobrepor-se diante dos recursos racionais.
  • Saramago não admite a possibilidade de que a razão seja credora de ética, onde as pessoas são capazes de usá-la contra suas próprias qualidades.
  • O temor manifesto de Saramago é o de que o uso da razão voltada contra si mesma implica numa arma destrutiva cujo o risco acaba sendo irracional.
  • O autor do texto afirma não se deixar levar pela força da imaginação, se esta representar um desvio do caminho ético a ser trilhado pela razão.
  • Seja qual for, a força da imaginação, não pode preponderar em virtude da razão, ainda quando o comando ético é imprescindível ao precisar se impor.
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