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#1721606
Texto da Questão:

TEXTO 01

O Padeiro

Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento - mas não encontro o pão costumeiro. No mesmo instante me lembro de ter lido alguma coisa nos jornais da véspera sobre a "greve do pão dormido". De resto não é bem uma greve, é um lock-out, greve dos patrões, que suspenderam o trabalho noturno; acham que obrigando o povo a tomar seu café da manhã com pão dormido conseguirão não sei bem o que do governo.

Está bem. Tomo o meu café com pão dormido, que não é tão ruim assim. E enquanto tomo café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quando vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava gritando:

- Não é ninguém, é o padeiro!

Interroguei-o uma vez: como tivera a ideia de gritar aquilo?

"Então você não é ninguém?"

Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido. Muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: "não é ninguém, não, senhora, é o padeiro". Assim ficara sabendo que não era ninguém...

Ele me contou isso sem mágoa nenhuma, e se despediu ainda sorrindo. Eu não quis detê-lo para explicar que estava falando com um colega, ainda que menos importante. Naquele tempo eu também, como os padeiros, fazia o trabalho noturno. Era pela madrugada que deixava a redação de jornal, quase sempre depois de uma passagem pela oficina - e muitas vezes saía já levando na mão um dos primeiros exemplares rodados, o jornal ainda quentinho da máquina, como pão saído do forno.

Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E às vezes me julgava importante porque no jornal que levava para casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma crônica ou artigo com o meu nome. O jornal e o pão estariam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi a lição de humildade daquele homem entre todos útil e entre todos alegre; "não é ninguém, é o padeiro!" E assobiava pelas escadas.


Rubem Braga. Para gostar de ler. São Paulo: Ática, 1989, p. 63-64.

De acordo com a estrutura textual de "O Padeiro", pode-se afirmar que:

  • É uma crônica, pois aborda assuntos ligados à vida cotidiana urbana, buscando provocar uma reflexão no leitor. De cunho narrativo, o texto apresenta um enredo, no qual são desenvolvidas as ações dos personagens, marcadas por um tempo e espaço.
  • É um conto predominantemente argumentativo, pois justifica o posicionamento do autor em relação à sua profissão de padeiro.
  • É um relato que apresenta uma narração sobre um fato marcante na vida do autor. É possível sentir as emoções e sentimentos expressos por quem narra o texto.
  • É um conto, uma vez que apresenta uma narrativa breve, formado apenas por um conflito entre os personagens envolvidos, e seu objetivo é dar algum ensinamento aos leitores. Além disso, é um texto descritivo, por apresentar as impressões do autor a respeito do espaço ao seu redor.
  • É um texto expositivo, pois possui a função de expor as ideias do narrador por meio da descrição e comparação. O conto é repleto de adjetivos que apresentam a imagem do padeiro a partir das percepções do narrador.
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