I.A., uma inteligência que não pensa. Já
pensou nisso?
Por Raphael Conceição
O assombroso avanço tecnológico dos
diversos modelos de linguagem existentes no
mundo de hoje deixa à margem um debate importante acerca do que se convencionou
denominar “Inteligência Artificial”.
A discussão que tenho proposto em
inúmeras palestras, oficinas e workshops sobre o
tema trata de uma região que figura entre a
imprecisão e o engano do uso do termo
“inteligência” para um tipo de tecnologia que não
pensa, não intui, não dispõe de consciência e, se
tanto, simula a atividade cerebral humana.
É indubitável que os bots que conversam
de maneira tão natural com as pessoas
transmitem uma sensação de proximidade.
Meu ponto, porém, é que essa
“pessoalidade”, por assim dizer, é tão legítima
quanto a “mágica” de um ilusionista que prende
nossa atenção em uma de suas mãos enquanto,
com a outra, realiza processos cujo resultado nos
encantará com lenços que lhe saem da boca ou
uma carta de baralho rasgada que volta a
aparecer em um dos bolsos de seu fraque.
É divertido ver, admito. Mas não é
mágica. Assim como conversar com um sistema
também me entretém. Mas não é conversa. Sob
essa ótica, desmistificamos questões que
inclusive atrapalham as pessoas a usufruírem
mais e melhor da tecnologia de que hoje
dispomos.
Quando nos damos conta de que tudo
aquilo que perguntamos, demandamos ou
pesquisamos, cujas respostas nos chegam em
segundos de maneira impressionante, decorre de
uma precisão estatística, matemática e
padronizada, compreendemos melhor que o
caminho a trilhar não é um embate IA x Humano,
e sim um viés em que a dita Inteligência Artificial
potencializa o que nós, pessoas, somos.
Se de melhor ou pior, bom, o critério e a
decisão ficam à nossa conta.
De todo modo, medos de que as
máquinas algum dia se revoltem contra nós como
nas telas de cinema – ou no streaming que
parece adivinhar a melhor série que combina com
o meu perfil – podem ser minimizados quando
aceitamos a IA tal qual ela é: poderosa em
cálculo e correlação, mas desprovida de
consciência ou compreensão semântica.
A máquina avança pela nossa real
inteligência e nos ajuda a automatizar tarefas
repetitivas, calcular cenários em dimensões e
magnitudes que há pouco pareciam impossíveis e
até mesmo predizer possibilidades com alta taxa
de acertos. Tudo isso sem tirar nem ameaçar o
papel que nos cumpre: decisores sobre qual
impacto queremos que a IA tenha em nossas
vidas.
A TV interferiu no rádio. O digital no
impresso. O CD no vinil. A IA, claro, vai
transformar muitos aspectos da nossa vida, e
nossa relação com ela moldará nosso futuro.
A pergunta que não quer calar (Como?),
porém, não deve ser direcionada ao ChatGPT ou
correlatos. Quem vai respondê-la seremos nós,
enquanto sociedade, dentro das classes, castas e
divisões a que nos submetemos (ou impomos).
Quem sabe a gente não escolhe usar a
tecnologia para um futuro mais inclusivo e menos
desigual. Se é possível sonhar? Eu creio que sim.
Mas esse papo é para um próximo texto.
Um abraço, enter, e até lá.
Fonte:
https://www.jb.com.br/brasil/opiniao/artigos/2025/10/10
57224-i-a-uma-inteligencia-que-nao-pensa-ja-pensounisso.html. Acesso em 31/10/2025. Excerto
Em “[...] a dita Inteligência Artificial potencializa o
que nós, pessoas, somos” (6º parágrafo), ocorre
figura de linguagem denominada:
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