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Foi encontrada 1 questão.
#2513186
Texto da Questão:

Leia o texto abaixo para responder a questão. 


    Você é um número

Por Clarice Lispector


        Se você não tomar cuidado vira número até para si mesmo. Porque a partir do instante em que você nasce classificam-no com um número. Sua identidade no Félix Pacheco é um número. O registro civil é um número. Seu título de eleitor é um número. Profissionalmente falando você também é. Para ser motorista tem carteira com número, e chapa de carro. No Imposto de Renda, o contribuinte é identificado com um número. Seu prédio, seu telefone, seu número de apartamento -- tudo é número.

       Se é dos que abrem crediário, para eles você é um número. Se tem propriedade, também. Se é sócio de um clube tem um número. Se é imortal da Academia Brasileira de Letras, tem o número da cadeira.

       É por isso que vou tomar aulas particulares de Matemática. Preciso saber das coisas. Ou aulas de Física. Não estou brincando: vou mesmo tomar aulas de Matemática, preciso saber alguma coisa sobre cálculo integral.

        Se você é comerciante, seu alvará de localização o classifica também.

        Se é contribuinte de qualquer obra de beneficência também é solicitado por um número. Se faz viagem de passeio ou de turismo ou de negócio também recebe um número. Para tomar um avião, dão-lhe um número. Se possui ações também recebe um, como acionista de uma companhia. É claro que você é um número no recenseamento. Se é católico recebe número de batismo. No registro civil ou religioso você é numerado. Se possui personalidade jurídica tem. E quando morre, no jazigo, tem um número. E a certidão de óbito também. 

        Nós não somos ninguém? Protesto. Aliás, é inútil o protesto. E vai ver meu protesto também é número. Uma amiga minha contou que no Alto Sertão de Pernambuco uma mulher estava com o filho doente, desidratado, foi ao Posto de Saúde. E recebeu a ficha número 10. Mas dentro do horário previsto pelo médico a criança não pôde ser atendida porque só atenderam até o número 9. A criança morreu por causa de um número. Nós somos culpados.

        Se há uma guerra, você é classificado por um número. Numa pulseira com placa metálica, se não me engano. Ou numa corrente de pescoço, metálica.

        Nós vamos lutar contra isso. Cada um é um, sem número. O si-mesmo é apenas o si-mesmo.

        E Deus não é número.

       Vamos ser gente, por favor. Nossa sociedade está nos deixando secos como um número seco, como um osso branco seco exposto ao sol. Meu número íntimo é 9. Só. 8. Só. 7. Só. Sem somá-los nem transformá-los em 987. Estou me classificando como um número? Não, a intimidade não deixa. Veja, tentei várias vezes na vida não ter número e não escapei. O que faz com que precisemos de muito carinho, de nome próprio, de genuinidade. Vamos amar que amor não tem número. Ou tem?

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/12336/voce-e-um-numero

Ao lermos a crônica acima, publicada por Clarice Lispector na década de 70, percebemos que a crítica da autora, se interpretada com inferências da atualidade, pode ser bem contemporânea, posto que:

  • no contexto atual, embora se ressalte muito a importância de investimentos na educação, percebe-se que as pessoas não têm dado tanto valor ao ensino, especialmente, de matemática, ao contrário do que Clarice Lispector somente defende no seu texto: as aulas de matemática;
  • nota-se, atualmente, a importância do número em todos os setores da sociedade, como mostra Clarice Lispector, a qual, visivelmente, não defende a necessidade do humano, do social, mas, sim, dos números, do exato;
  • no momento em que vivemos, especialmente no contexto pandêmico de 2020, o ser humano tem se tornado, cada vez mais, um número, sendo necessário o amor, sentimento destacado pela autora, para se poder ver além disso;
  • a autora defende somente a necessidade da objetividade diante de uma era tão tecnológica quanto esta, o que a faz precisar compreender os números em vez de sua própria existência;
  • a autora só faz referência a importância dos números para codificação no mundo em que vive, defendendo esta necessidade e desprezando, assim, os sentimentos humanos.
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