Só existe uma frase que me incomoda
mais do que perguntar a uma criança o que ela
quer ser quando crescer, que é quando nos
referimos aos pequenos como sendo eles o futuro
do mundo. Ainda tocado pela palestra da jornalista
Eliane Brum, a que tive o privilégio de assistir na
última semana aqui em Santa Maria, guardei em
minhas anotações algo dito por ela, que se
encaixa perfeitamente no meu texto de hoje. Enquanto falava acerca de sua luta em
defesa da Amazônia e do quanto precisamos
“acordar” em relação ao aquecimento global, a
jornalista mais premiada da história do nosso país
foi enfática quando afirmou que “estamos
destruindo o mundo dos nossos filhos”. Foram palavras que me atingiram em
cheio, como uma flecha precisamente lançada
sobre o peito, que impacta, causa dor e
desconforto. O que eu senti tem a ver com o
significado prático dessa frase, é claro: estamos
destruindo o mundo. Mas, para além disso, fui
imediatamente tocado por algo que é inseparável
de mim há quase quatro anos, desde que me
tornei pai. Só de imaginar que a minha filha poderá
encontrar um mundo com a natureza destruída e
sem elementos básicos para a sua sobrevivência,
como, por exemplo, água potável, senti uma
angústia que preciso compartilhar. Eu sei que já existem muitas pessoas
conectadas por esta mínima consciência de que
precisamos mudar os nossos hábitos, se
quisermos preservar a nossa espécie. Mas ainda
são poucos, muito poucos. Eu, por exemplo, já
consigo separar cotidianamente o lixo orgânico
do seco; porém, me vejo tomado por hábitos de
consumo – e geração de resíduos –
completamente desnecessários. Eu não tenho
colaborado para que o mundo da minha própria
filha exista no futuro. O que tudo isso tem a ver com dizer para
as crianças que elas são o futuro do mundo?
Tudo! Percebam a dupla violência que estamos cometendo com as crianças de hoje e também
com as que ainda estão por nascer. Colocamos
nelas a responsabilidade de “ser o futuro” de um
mundo que nós estamos destruindo. (...)
RIBEIRO, Gilvan. As crianças não são o futuro
do mundo. Disponível em
https://claudemirpereira.com.br/2019/05/cronica-gilvan-ribeiro-e-a-historia-do-lobisomem-que-assombrou-o-campestre-e-dificil-acreditar-mas/.
O que justifica o conteúdo do título do texto “As
crianças não são o futuro do mundo”, segundo o
autor, é que:
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