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#1639843
Texto da Questão:

Comprou a esposa numa liquidação, pendurada que estava, junto com outras, no grande cabide circular. Suas posses não lhe permitiam adquirir lançamentos novos, modelos sofisticados. Contentou-se pois com essa, fim de estoque, mas preço de ocasião.
Em casa, porém, longe da agitação da loja – homem escolhendo mulher, homem pagando mulher, homem metendo mulher em saco pardo e levando às vezes mais de uma para aproveitar o bom negócio – percebeu que o estado de sua compra deixava a desejar.
“É claro”, pensou reparando na sujeira dos punhos, no amarrotado da pele, nos tufos de cabelo que mal escondiam rasgões do couro cabeludo, “eles não iam liquidar coisa nova”.
Conformado, deitou-a na cama pensando que ainda serviria para algum uso. E, abrindo-lhe as pernas, despejou lá dentro, uma por uma, brancas bolinhas de naftalina.
(COLASANTI, Marina. Por preço de ocasião. In: ___. Contos de amor rasgados. Rio de Janeiro: Rocco, 1986. p. 13.)

No miniconto anterior, a mulher remete à metáfora de que a esposa é uma mercadoria, o que se comprova por  

  • apagamento de qualquer representação positiva, quando é deitada na cama e suas pernas são abertas.
  • generalização da figura feminina, uma vez que a mulher estava pendurada “junto com outras”.
  • caracterização depreciativa, como em “sujeira dos punhos”, “amarrotado da pele”, “tufos de cabelo” e “rasgões do couro cabeludo”.
  • escolha de palavras do mesmo campo semântico, tais como liquidação, pendurada em cabide, lançamentos, modelos, estoque, preço, loja e compra.
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