João José, de batismo. Nome todo: João José de Sousa.
Nascido no estado da Guanabara, no bairro do Encantado. Atualmente conta 22 anos; é um rapaz honesto, de bom caráter e
que sempre ajudou a família. Nascido no estado de Guanabara
no bairro Encantado. Atualmente conta 22 anos; é um rapaz
honesto, de bom caráter e que sempre ajudou a família. O pai
morreu quando ele ainda era menino, e, por isso, desde cedo
aprendeu a trabalhar para ajudar a mãe e duas irmãs menores.
Vendeu pastel na estação do Encantado, foi boy de escritório,
contínuo de banco - tudo na época em que fazia o curso ginasial
de noite.
Sempre foi um rapazinho esperto e logo percebeu que era
preciso estudar para ser alguma coisa na vida. Mas nunca teve
ilusões: era preciso trabalhar e estudar ao mesmo tempo. A
família era unida e todos se ajudavam mutuamente. A irmã mais
velha está noiva de um colega seu, que também é bom rapaz. Em
suma: para João José a vida era dura, mas não era intolerável.
Era um bom aluno de farmácia, um dos mais aplicados da turma
e ia se virando para pagar as anuidades, os livros, tudo o que
precisava, enfim, com soldo da Polícia Militar. Bom soldado,
também. Antes tinha sido um bom atleta e não foi difícil passar
nos exames da PM. Lá, ao menos, comida de graça, tinha farda
de graça e ainda o soldo.
No dia em que foi mais sangrenta a luta entre estudantes e
polícia, estava de folga do quartel. Nem soube de nada. Aproveitara o dia para passar a matéria de química. A faculdade estava
fechada, todos em greve, uma lástima. João José se dividia em
seus afazeres com um zelo raro. Estudou até tarde e acordou
tarde também. Foi a mana mais moça que lhe invadiu o quarto
com café cheiroso e um sorriso fraternal, chamando-o vagabundo, dizendo que aquilo não era hora para pobre estar na cama.
Levantou-se fazendo cara de bandidão e avançou para a menina,
como se fosse triturá-la por tê-lo despertado. A irmã colocou o
café sobre a mesinha tosca e deu um gritinho. Ele alcançou e
pôs-se a fazer-lhe cócegas, enquanto a chamava de bruxa. "Ela
conseguiu desvencilhar-se e saiu rindo para o corredor, gritando
que" João José está maluco! João José está maluco!"
Ainda não estava.
Depois do banho foi beijar a mãe na cozinha e viu o jornal,
num canto. Apanhou e pôs-se a ler. Logo no cabeçalho dos
noticiários percebeu que seu plano de ir até a faculdade saber
das novidades e depois se apresentar no quartel (ia dar plantão)
era inexequível. A mãe disse-lhe qualquer coisa que ele não
percebeu o que era, porque mergulhou na leitura e foi quase
inconscientemente que voltou ao quarto, sentou-se na beira da
cama e ficou lendo. Leu tudo de um fôlego, às vezes sem acreditar no que lia, mas tendo que continuar a leitura, tal era a sua curiosidade, tal era a sua estupefação. João José - homem honesto e correto -, depois de ler tudo, olhou para as fotografias,
reconheceu policiais, reconheceu vários colegas de faculdade.
Começou a ler de novo, correndo a lista de presos, a lista de
feridos.
Já não sabia mais de si mesmo; não sabia se tinha sido direito dormir o sono que, na noite anterior, seu organismo pedia.
Se ao menos soubesse antes! Claro que não iria dormir, mas
onde teria se apresentado? Ao grupo de colegas que eu havia
procurado, na certa, e que só não encontrara porque não tinha
o telefone e morava num subúrbio... ou teria ido para o quartel? Lá, certamente, todos sabiam com antecedência que o pau
ia comer e aguardavam sua apresentação. Ele não fora e nem
dera satisfação. Muitos companheiros deviam ter saído para o
centro das hostilidades pensando que talvez o encontrassem do
outro lado, atirando pedras, gritando suas reivindicações. Como
estudante, sabia que o protesto era justo. Tinha acompanhado
assembleias, visto como seus colegas insistiram para ser ouvidos
serenamente. Como policial, seu dever era cumprir ordens. Correu os olhos pela lista de presos: o Alfredo, o Carlos, a Luísa -
moça tão bonita, como estariam tratando-a aos agentes do Dops?
De repente viu a notícia da morte do PM Nelson. Puxa, o Nelson! Leu trêmulo: no alto dos edifícios o povo tentou ajudar os estudantes massacrados e algo caíra sobre o Nelson, seu companheiro Nelson, matando-o.
A mãe passou pelo corredor e viu-o nu da cintura pra cima,
mas com as calças que costumava usar quando ia à faculdade:
- Você vai à faculdade, meu filho? - e nem estranhou de não ouvir
resposta. Estava muito ocupada com o almoço para notar que о
filho estava completamente transformado.
O que devia ter feito, meu Deus? Ficado do lado dos colegas
e enfrentar a fúria policial? Juntar-se aos companheiros do quartel, na repressão às manifestações? Ele teria batido? Ele teria
apanhado? A ordem de um lado era de não ter medo de apanhar;
a ordem do outro era não ter pena de bater.
Por cima das calças vestiu o dólmã de PM. Quando a irmā
entrou no quarto para arrumar, foi que viu. Saiu correndo, chorando, gritando: "João José está louco! Está batendo de sobre
nele mesmo..."
O sangue jorrava do nariz! Da testa!
Não ter medo de apanhar! Não ter pena de bater!
(Stanislaw Ponte Preta. Febeapá. Companhia das Letras, 2015, p. 416)
Ele alcançou e pôs-se a fazer-lhe
cócegas. A palavra em destaque, assim como muitas
outras da Língua Portuguesa, apresenta alguma dificuldade na hora de ser escrita devido a relação de som
e grafia. Nas opções a seguir, marque a que apresenta
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