Tudo o que ouvi dizer de minha avó materna devo à
insistência com que abordei o assunto. Minha mãe gostava
de contar casos de família depois do jantar, sentada à mesa
da copa ou numa poltrona de couro da sala, mas esse ela
muitas vezes evitava com habilidade. Dizia que ainda era
menina quando minha avó morreu, que as coisas que sabia
tinha escutado entre os oito e os doze anos de idade, que
a partir daí o convívio com a mãe ficou muito prejudicado
ou então que sua memória andava fraca ultimamente. A impressão que me dava, vendo-a passar o dedo em cima de
um friso da toalha ou de um veio saliente no braço da poltrona, era a de alguém que no primeiro instante se recorda e
no seguinte abafa compulsivamente as imagens evocadas.
Os motivos alegados podiam ser reais, mas não era verdade que sua memória estivesse fraca; pelo contrário, os anos
pareciam beneficiá-la com as reflexões da velhice e a busca
silenciosa de um sentido para a experiência. Além disso,
era inevitável que mencionasse sua mãe como personagem
relevante da sua história pessoal, o que acabou levando à
composição de um quadro inteligível, ainda que sumário,
dos sofrimentos de minha avó.
(Modesto Carone, Resumo de Ana, 1998)
Durante as conversas com a mãe, o narrador sente que
ela
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