Um dia, aconteceu isto: um gatito apareceu no nosso
quintal. De abuso, ninguém lhe tinha convidado. Pensei em ir
atirá-lo no fundo da Ilha, onde há sempre restos dos restaurantes e suficientemente longe de casa para não aprender o
caminho de volta. De fome não morreria, se evitasse outras
mortes. Mas ele era engraçado, sem medo do cão nem das
pessoas. E o cão adotou-o. Ficou, que remédio. Cresceu.
Notamos logo a diminuição de ratos no quintal, tentando
entrar em casa. Um dia o gato desapareceu, deixando um
vazio. Mais tarde uma gata vadia pariu no quintal, entre as
plantas. Os gatitos cresceram e deixamos, na esperança de
domarmos algum. Até procurávamos seduzi-los com comida, pois eram muito esquivos, medrosos ou desconfiados.
Tinham as suas razões para desconfiarem dos humanos.
Desapareceram também. É lógico, na vizinhança há quem
não goste de gatos, embora haja ratos que chegue. Havia
também umas obras e parece que os trabalhadores gostam
de atirar ferramentas aos bichos. Pode ser a causa.
(Pepetela. Crónicas Maldispostas, 2015. Adaptado)
Considere as passagens:
• Pensei em ir atirá-lo no fundo da Ilha…
• Ficou, que remédio.
• Os gatitos cresceram e deixamos, na esperança de
domarmos algum.
As passagens permitem, correta e respectivamente, as
seguintes interpretações:
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