As redes sociais alimentam, mas não são as únicas
responsáveis pela egolatria que tomou conta do mundo. Vivendo
numa bolha chamada sociedade de consumo, cada um de nós
passou a ser encarado como um produto e, como tal, precisa se
“vender”. Para se colocar bem no mercado do amor e no mercado
de trabalho, tornou-se obrigatório apresentar um perfil, e então
tratamos de falar muito sobre nós, sobre nossos atributos e tudo o
que possa fazer a gente avançar em relação à concorrência, que
não é pequena. Somos os publicitários de nós mesmos, uns mais
discretos, outros mais exibidos, mas todos procurando encantar o
próximo, que propaganda nada mais é do que isso: a arte de
seduzir.
Contraditoriamente, quando se torna necessário falarmos não
de nossos atributos, mas de nossas dores, de nossas inseguranças
e de nossos defeitos, fechamos a boca. Mesmo os que estão bem
perto, aqueles que nos são íntimos, não escutam a nossa voz.
Calamos por temer um julgamento sumário. Produtos precisam ser
eficientes, não podem ter falhas.
A boa notícia é que tudo isso é um absurdo. Não somos um
produto. Não precisamos de slogan, embalagem, jingle. Estamos
aqui para conviver, e não para sermos consumidos. E, se
quisermos que realmente nos conheçam, o ideal seria parar de nos
anunciarmos como o último copo d’água do deserto.
O documentário Eu Maior, um dos trabalhos mais tocantes a
que assisti nos últimos tempos, traz o depoimento de filósofos,
artistas, cientistas e ambientalistas sobre quem verdadeiramente
somos e como devemos nos relacionar com o universo. Entre
várias colocações ponderadas, teve uma de Marina Silva que tomei
como uma lição de comportamento: “Você descobre a qualidade de
uma pessoa não quando ela fala de si, mas quando ela fala dos
outros”.
Ou seja, o que revela sua verdadeira natureza são os
comentários venenosos que costuma distribuir ou os elogios que
faz sobre amigos e desconhecidos. São as fofocas que oculta para
não menosprezar seus semelhantes ou que espalha por aí,
acrescentando uma maldadezinha extra. Você é avaliado de forma
mais precisa através da sua capacidade de enaltecer o positivo que
há ao seu redor ou de propagar o negativismo que sobressai em
tudo o que vê. Você demonstra que é uma pessoa maior – ou menor
– de acordo com sua necessidade de diminuir ou de valorizar
aqueles que o rodeiam, de acordo com um olhar que deveria ser
justo, mas quase sempre é competitivo. É através das suas
palavras amorosas ou das suas declarações injuriantes que os
outros saberão exatamente quem é você – pouco importando o que
você diga sobre si mesmo.