Em 2009, um avião pousou de emergência no rio
Hudson. O piloto era Sully Sullenberger e as 155 pessoas a
bordo foram salvas por uma manobra impossível, perigosa,
milagrosa. Sully virou herói e a lenda estava criada.
Em 2016, no filme “Sully, o herói do rio Hudson”, Clint
Eastwood revisitou a lenda para contar o que aconteceu depois do milagre: uma séria investigação às competências do
capitão Sully Sullenberger. Ele salvara 155 pessoas, ninguém
contestava. Mas foi mesmo necessário pousar no Hudson?
Ou o gesto revelou uma imprudência criminosa, sobretudo
quando existiam opções mais sensatas?
Foram feitas simulações de computador. E a máquina
deu o seu veredicto: era possível ter evitado as águas do rio
e pousar em LaGuardia ou Teterboro. O próprio Sully come- çou a duvidar das suas competências. Todos falhamos. Será
que ele falhou?
Por causa desse filme, reli um dos ensaios de Michael
Oakeshott, cujo título é “Rationalism in Politics”. Argumenta o
autor que, a partir do Renascimento, o “racionalismo” tornou-
-se a mais influente moda intelectual da Europa. Por “racionalismo”, entenda-se: uma crença na razão dos homens como
guia único, supremo, da conduta humana.
Para o racionalista, o conhecimento que importa não vem
da tradição, da experiência, da vida vivida. O conhecimento
é sempre um conhecimento técnico, ou de uma técnica, que
pode ser resumido ou aprendido em livros ou doutrinas.
Oakeshott argumentava que o conhecimento humano
depende sempre de um conhecimento técnico e prático, mes- mo que os ensinamentos da prática não possam ser apresentados com rigor cartesiano.
Clint Eastwood revisita a mesma dicotomia de Oakeshott
para contar a história de Sullenberger. O avião perde os seus
motores na colisão com aves; o copiloto, sintomaticamente,
procura a resposta no manual de instruções; mas é Sully
quem, conhecendo o manual, entende que ele não basta
para salvar o dia.
E, se os computadores dizem que ele está errado, ele
sabe que não está – uma sabedoria que não se encontra em
nenhum livro já que a experiência humana não é uma equa- ção matemática.
As máquinas são ideais para lidar com situações ideais.
Infelizmente, o mundo comum é perpetuamente devassado
por contingências, ambiguidades, angústias, mas também
súbitas iluminações que só os seres humanos, e não as má- quinas, são capazes de entender.
Quando li Oakeshott, encontrei um filósofo que, contra
toda a arrogância da modernidade, mostrava como a nossa
imperfeição pode ser, às vezes, uma forma de salvação. O
ensaio era, paradoxalmente, uma lição de humildade e uma
apologia da grandeza humana. Eastwood, aos 86 anos, traduziu essas imagens.
(João Pereira Coutinho. Folha de S.Paulo, 29.11.2016. Adaptado)
De acordo com as ideias do texto, as máquinas
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