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#3723489
Texto da Questão:

A última vez em que não tive escolha



Minha mãe repete com uma certa frequência que eu vou ser pra sempre o bebê dela — sem se preocupar com a veracidade dessa promessa simbólica. Eu costumava responder relutante: "Já sou bem grandinha", numa tolice clássica. Até me encantava com o Peter Pan, mas me sentia muito diferente dele — não via a hora de crescer!


Afinal, "não posso ficar nessa casa!". Eu reclamava como qualquer pré-adolescente. E de fato, não podia mesmo: nem bem eu queria, não podia pintar o cabelo, não podia ouvir música alta. Ah, que tortura, a lição de obediência...


Foi quando decidi pela desobediência. Uma decisão incomum para a filha que nunca deu trabalho. Por quase dois anos, menti dezenas de vezes para os meus pais, coitados.


A rebeldia não durou muito, mas atendeu — e concordou um pouco — com a raiz daquelas atitudes duvidosas: não era rebeldia sem motivo. Era apenas a incerteza de acreditar que crescer seria o fim dos meus problemas.


Os adultos me fizeram compreender melhor as desvantagens da vida adulta. Recentemente, estava em alta nas redes sociais por zombarem da CLT. Me parecia uma tendência elitista e cínica dos trabalhadores, mas que expressava inconsciente a percepção de que jornadas exaustivas e um salário mínimo não valem o esforço.


No auge dos meus 14 anos, não pensava nisso. Não acreditava em fardas, mas em uma liberdade ilusória. Mal podia imaginar que a vida nos oferece um número limitado de escolhas, e que até elas podem se tornar prisões. Hoje, peço humildemente: "Mãe, você pode me dizer o que fazer?". E a sua resposta letal é: "A escolha é sua".



KELLY, Sarah. A última vez em que não tive escolha. In: UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Livros Abertos USP: coletânea de textos literários contemporâneos. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2022. Disponível em: https://www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/view/1 691/1544/6178 . Acesso em: 4 nov. 2025.

Considerando as regras da concordância verbal e nominal, bem como o funcionamento sintático-semântico do período "Os adultos me fizeram compreender melhor as desvantagens da vida adulta", pode-se

  • O verbo "fizeram" e o adjetivo "melhor" compõem um predicado verbo-nominal, em que o termo "melhor" atua como predicativo do objeto "me", razão pela qual deveria concordar com o pronome de 1ª pessoa e assumir a forma "melhores.
  • O verbo "fizeram" é de sujeito indeterminado, pois a presença do pronome oblíquo "me" impede a explicitação do agente da ação, justificando a forma verbal no plural como genérica.
  • O verbo "fizeram" tem sujeito simples e, portanto, flexiona-se regularmente no plural; já o termo "melhor" funciona como adjunto adverbial de modo, razão pela qual permanece invariável, não havendo relação de concordância nominal com "desvantagens".
  • O verbo "fizeram" está corretamente flexionado no plural para concordar com o sujeito composto "os adultos", e o predicativo "melhor" concorda em gênero e número com o substantivo "as desvantagens", estabelecendo dupla concordância obrigatória.
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