Mas comecemos por Karoline. Trabalhando em uma fábrica de roupas, a protagonista não tem notícias do marido,
que se alistara para lutar na guerra, há mais de um ano e, em um misto de desespero por ter sido despejada e
oportunidade, por perceber que o dono da fábrica se interessara por ela, passa a ter um relacionamento com ele,
o que a leva a engravidar. O que segue, daí, é uma espiral ainda mais intensa de pura dor e miséria que a leva à
esfera de influência de Dagmar, que promete encontrar um bom lar para o bebê, o que só amplifica os horrores
que são descortinados em uma excelente, mas angustiante cadência de queima lenta que não poupa o espectador
de absolutamente nada. Mas é importante compreender, para aqueles que esperarem um filme sobre a
referida serial killer, que A Garota da Agulha não tem esse feitio e o foco permanece constantemente em Karoline.
A primeira coisa que chama atenção é a transformação de Vic Carmen Sonne, uma bela atriz, em sua versão
completamente sem glamour, com dentes tortos, cabelos desgrenhados, uma leve corcunda e uma linguagem
corporal que transmite fragilidade, em um resultado que não só é realista, especialmente para a época, como
parece perfeitamente natural. Esse é o primeiro sinal de que a produção não tem intenção alguma em lidar com
beleza, algo que o design de produção de Jagna Dobesz, a direção de arte de Ristergren Albistur Lisette e Ewa
Mroczkowska e a direção de fotografia em preto e branco de Michal Dymek elevam ao patamar de arte, mas uma
arte suja, feia, deprimente, que tem o poder de subsumir toda uma era no continente europeu. Até mesmo o pouco
que vemos da aristocracia local, quando Karoline é convidada à mansão onde mora seu amante rico, é de uma
qualidade inquietante, com o pouco de real beleza sendo manchada pelas ações que lá acontecem.