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#2069010

Leia o texto a seguir.


De uns tempos pra cá, virou mania explicar alguma coisa fazendo analogia com outra para, ao final, negar essa analogia com um “só que não”: “Esse livro é como se fosse um romance policial, só que não”.

Como sempre, não se sabe ao certo quando e onde surgiu o modismo, mas sabe-se que surgiu num determinado ato de fala de um único indivíduo (provavelmente alguém com forte influência social). Como um meme, essa “mutação” logo contaminou os receptores da mensagem, que passaram a copiar (replicar) a inovação em seus discursos. Em pouco tempo, milhares de pessoas estão usando e passando adiante o vírus “só que não”.

Essa moda lembra as empoladas declarações de Caetano Veloso, que, após discorrer longamente sobre o tudo e o nada, fazendo afirmações muitas vezes polêmicas, conclui com um seco “Ou não”. Ou seja, tudo o que o baiano disse é a mais profunda verdade – ou não. Pérola da lógica aristotélica, essa conclusão releva o óbvio preceito do terceiro excluído: de duas proposições contraditórias, uma é verdadeira; a outra, falsa. Só que, dito assim, o fecho retórico “ou não” anula toda a força argumentativa do que foi afirmado: por que levar em consideração uma opinião se seu próprio emitente admite que pode estar errada?


BIZZOCCHI, Aldo. A prova viva da evolução. Revista Língua. Ed. Segmento, n. 112, p. 27, fev. 2015.


Com base na leitura do trecho, é CORRETO inferir que

  • o emprego predominantemente informal de “só que não” revela pouca prática linguística do usuário, já que há expressões específicas tradicionalmente mais aceitas.
  • o uso da expressão “só que não”, independentemente da variante linguística empregada, tem função análoga à de outros operadores discursivos adversativos.
  • a analogia traçada pelo autor entre “só que não” e “ou não” baseia-se na natureza de nossa língua, pois “só que” e “ou” são conectivos de mesma carga semântica.
  • o contrassenso criado pelo uso de “só que não” ou de “ou não” invalida a argumentação do emitente, pois cria uma incorreção linguística que se torna incompreensível.
  • o advento de expressões como “só que não” só existe pelo fato de usuários com prestígio linguístico terem repetido a estrutura várias vezes em meios sociais digitais.
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