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#3508618
Texto da Questão:

Analise os textos abaixo para responder à próxima questão: 


TEXTO I


Canção do exílio


Minha terra tem palmeiras

Onde canta o Sabiá,

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.


Nosso céu tem mais estrelas,

Nossas várzeas têm mais flores,

Nossos bosques têm mais vida,

Nossa vida mais amores.


Em cismar, sozinho, à noite,

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá. 


Minha terra tem primores,

Que tais não encontro eu cá;

Em cismar – sozinho, à noite –

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.


Não permita Deus que eu morra,

Sem que eu volte para lá;

Sem que desfrute os primores

Que não encontro por cá;

Sem qu’inda aviste as palmeiras,

Onde canta o Sabiá.


Gonçalves Dias


TEXTO II


Canção do Exílio 


Minha terra tem macieiras da Califórnia

onde cantam gaturamos de Veneza.

Os poetas da minha terra

são pretos que vivem em torres de ametista,

os sargentos do exército são monistas, cubistas,

os filósofos são polacos vendendo a prestações.

A gente não pode dormir

com os oradores e os pernilongos.

Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda

Eu morro sufocado

em terra estrangeira.

Nossas flores são mais bonitas

nossas frutas mais gostosas

mas custam cem mil réis a dúzia.

Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade

e ouvir um sabiá com certidão de idade!


Murilo Mendes

    Os textos acima recebem o mesmo título. O primeiro guardando relação intertextual com o segundo, pois foi escrito cronologicamente antes. Essa relação textual se pauta em:

  • Ambos escritores se encontram geograficamente distante de sua terra natal e lamentam por esse fato; Gonçalves Dias, entretanto, faz isso de maneira mais idealizada.
  • O texto I se propõe a elencar elementos que estão relacionados à saudade que o eu-lírico sente da terra natal, já o texto II o eu-lírico não está distante de seu país de origem e se vale das estruturas da Canção do exílio original para tecer críticas ao contexto artístico em que está inserido.
  • A relação entre os dois poemas é apenas estrutural, Murilo Mendes rende uma homenagem ao grande clássico de Gonçalves Dias, porém não tem intenção de criar um novo contexto, apenas atualizá-lo.
  • Murilo Mendes por meio da ironia, típico de poetas do período em que está inserido, critica a ingenuidade dos poetas românticos da primeira geração que privilegiavam o apreço à beleza da natureza nacional, sem reflexão.
  • É perceptível o tom de homenagem do texto II, feito, unicamente, para evidenciar a forma como o eu-lírico de Murilo Mendes se encontrava exilado não geograficamente, mas psicologicamente, tendo caráter confessional e biográfico.
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