Na longa espera, esperava o retorno de quem há muito partira. Os olhos dela eram um espelho das lágrimas derramadas, noites
mal dormidas. O silêncio lhe tirara o sol lhe embriagara o sangue. Sangue que não mais corria. Rastejava-se, lânguido, por entre veias
ressequidas, sem muita ideia de para onde ir. A Terra em constante movimento, mas ela estática. O amor lhe traíra. Uma faca em seu
peito num momento de distração. Seus pés fincados no chão, as solas grossas, amalgamadas ao concreto frio.
Num certo dia, parou de olhar ao redor. Concluiu que o passado foi feito para ficar lá atrás. Um instante destruído não
poderia ser eternizado. Não poderia lhe corar as faces. Nem tombar sua consciência.
Em anos, pela primeira vez, o futuro lhe sorriu. A sombra que se lhe fizera renegar, agora, derretia-se ante a intensidade
que ela mesma carregava em estado natimorto. Soergueu-se no impacto do desejo, e descobriu-se apaixonada por si. Quando
segundos ficaram para trás, seus pés caminhavam apressados rumo ao horizonte que lhe convidava.
No caminho, encontrou com ele – ele, a razão de todo seu sofrimento. Ele sorriu-lhe feridas antigas, pediu-lhe perdões impossíveis, jurou-lhe promessas que não cumpriria. Por um instante, ela parou. Recorreu ao que antes ignorara: uma análise criteriosa da
situação. Após pensar e meditar, sorriu-lhe acidez e despediu-se dele com um retundo:
– Vá pastar!
(Juliano Martinz. Corrosivas – Crônicas Corrosivas e Gestos de Amor, 2010.)
Ao realizar a leitura da crônica de Juliano Martins, é possível afirmar que:
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