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#3703106
Texto da Questão:

A tontura da fome é pior do que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago. Comecei a sentir a boca amarga. Pensei: já não basta as amarguras da vida? [...]. Pensei em guardar para comprar feijão. Mas vi que não podia porque o meu estômago reclamava e torturava-me. Resolvi tomar uma média e comprar um pão. Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as árvores, as aves, tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos. A comida no estômago é como combustível nas máquinas. Passei a trabalhar mais depressa. Meu corpo deixou de pesar. [...] Eu tinha a impressão que eu deslizava no espaço. Comecei a sorrir como se eu estivesse presenciando um lindo espetáculo. E haverá espetáculo mais lindo do que ter o que comer? Parece que eu estava comendo pela primeira vez na minha vida.

JESUS, C. M. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2007.

O professor de Sociologia resolveu trabalhar a questão da alimentação entre os estudantes do Ensino Médio. Para tal, pediu que os estudantes realizassem, com seus familiares, uma pesquisa sobre gostos/hábitos alimentares. Para sustentar teoricamente a pesquisa, o professor apresentou ao grupo a discussão feita por Pierre Bourdieu sobre capital cultural e habitus e mostrou qual a relação desses conceitos com a construção social do “gosto”. Nesse cenário, o debate que mais se aproxima de uma análise crítica sobre o gosto de classe e estilo de vida no contexto brasileiro é:

  • Ohabitusé adquirido de acordo com a posição social do indivíduo e de acordo com o campo em que está inserido, o que permite ao indivíduo formar posições sobre os diferentes aspectos da sociedade e é, também, o que determina o “gosto”.
  • Ohabitusé um conjunto unívoco de bens, de práticas e de escolhas. Sendo assim, o “gosto” é uma escolha pessoal e, portanto, indiscutível, como se diz no senso comum.
  • Ohabitusrepresenta as estruturas estruturantes estruturadas introjetadas no indivíduo, o que permite ao indivíduo agir no mundo. Sendo assim, podemos inferir que o “gosto” é algo que pode ser comparado ao “dom” e é inerente ao indivíduo.
  • Ohabitusé adquirido desde a mais tenra idade, mas não é imutável, podendo sofrer alterações com as novas experiências dos sujeitos. O “gosto”, no entanto, é algo imutável, já que se constitui em um elemento da natureza do indivíduo.
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