A tontura da fome é pior do que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é
horrível ter só ar dentro do estômago. Comecei a sentir a boca amarga. Pensei: já não basta as amarguras da vida? [...]. Pensei em
guardar para comprar feijão. Mas vi que não podia porque o meu estômago reclamava e torturava-me. Resolvi tomar uma média
e comprar um pão. Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as árvores,
as aves, tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos. A comida no estômago é como combustível nas
máquinas. Passei a trabalhar mais depressa. Meu corpo deixou de pesar. [...] Eu tinha a impressão que eu deslizava no espaço.
Comecei a sorrir como se eu estivesse presenciando um lindo espetáculo. E haverá espetáculo mais lindo do que ter o que
comer? Parece que eu estava comendo pela primeira vez na minha vida.
JESUS, C. M. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2007.
O professor de Sociologia resolveu trabalhar a questão da alimentação entre os estudantes do Ensino Médio. Para tal, pediu que
os estudantes realizassem, com seus familiares, uma pesquisa sobre gostos/hábitos alimentares. Para sustentar teoricamente a
pesquisa, o professor apresentou ao grupo a discussão feita por Pierre Bourdieu sobre capital cultural e habitus e mostrou qual
a relação desses conceitos com a construção social do “gosto”. Nesse cenário, o debate que mais se aproxima de uma análise
crítica sobre o gosto de classe e estilo de vida no contexto brasileiro é:
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