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#2547341
Texto da Questão:

Canto III – Esquece

Todo camburão tem um pouco de navio negreiro

Marcelo Yuka

    Violência é carrão parar em cima do pé da gente e fechar a janela de vidro fumê e a gente nem ter a chance de ver a cara do palhaço de gravata para não perder a hora ele olha o tempo perdido no rolex dourado.

    Violência é a gente naquele sol e o cara dentro do ar condicionado uma duas três horas quatro esperando uma melhor oportunidade de a gente enfiar o revólver na cara do cara plac.

    Violência é ele ficar assustado porque a gente é negro ou porque a gente chega assim nervoso a ponto de bala cuspindo gritando que ele passe a carteira o relógio enquanto as bocas buzinam desesperadas.

    Violência são essas buzinadas e essa fumaça e o trânsito parado e o outro carro que não entende que se dependesse da gente o roubo não demoraria essa eternidade atrapalhando o movimento da cidade.

    Violência é você pensar que tudo deu certo e nada deu certo porque quando você vê tem um policial ali perto querendo salvar o patrimônio do bacana apontando para a nossa cabeça um 38 e o outro 38 à paisana.

    Violência é acabarem com a nossa esperança de chegar lá no barraco e beijar as crianças e ligar a televisão e ver aquela mesma discussão ladrão que rouba ladrão a aprovação do mínimo ficou para a próxima semana.

    Violência é a gente ficar com a mão levantada cabeça baixa em frente à multidão e depois entrar no camburão roxo de humilhação e pancada e chegar na delegacia e o cara puxar a nossa ficha corrida e dizer que vai acabar outra vez com a nossa vida.

    Violência é a gente receber tapa na cara e na bunda quando socam a gente naquela cela imunda cheia de gente e mais gente e mais gente e mais gente pensando como seria bom ter um carrão do ano e aquele relógio rolex mas isso fica para depois uma outra hora. Esquece.

(FREIRE, Marcelino. In Contos negreiros. Rio de Janeiro: Record, 2015, p.31 -33.)

Sobre o Canto III - Esquece, de Marcelino Freire, é correto afirmar que:

  • A ausência de pontuação, o uso de onomatopeias e o registro de gírias demonstram total desconhecimento da norma culta por parte do autor. Esse tipo de produção contribui para a desvalorização da norma culta, afastando os leitores de um dos principais objetivos de um texto literário, que é o de defender a língua portuguesa como elemento da cultura nacional.
  • Na elaboração do texto, o escritor se vale de recursos sonoros, como a anáfora, perceptível na recorrência do termoviolênciano início dos parágrafos. Além desse recurso, há diálogos com outros textos, seja por meio da citação explícita do compositor Marcelo Yuka, seja pela intertextualidade implícita. Esses recursos textuais situam-no como literatura contemporânea, uma vez que os limites entre poesia e prosa são rompidos, e dão espaço ao experimentalismo linguístico e ao questionamento de valores consagrados pelo cânone.
  • O conto focaliza casos e costumes urbanos, contemplando tópicos como os rituais de criminalidade e os dramas próprios dos presídios brasileiros. Misto de poesia e prosa, permanece atual e pode ser considerado um exemplo do concretismo, não só pelas ideias, mas também pela força do estilo.
  • EmFormação da Literatura Brasileira, Antonio Candido afirma que o texto literário deve ser parcela de um esforço construtivo mais amplo, denotando o intuito de contribuir para a grandeza da nação. Essa assertiva descaracteriza o texto de Marcelino Freire enquanto representante da literatura brasileira, pois, ao dar voz à marginalidade por meio de um narrador em primeira pessoa que questiona as instâncias de poder, o autor foge ao projeto estético de contribuição para a elaboração de um país.
  • O conto mantém o plano ideológico realista-naturalista, refletindo a tendência à verossimilhança por meio da exposição de um cenário urbano, com tipos peculiares do cotidiano, ao mesmo tempo em que indica ruptura no plano estético, apresentando uma linguagem inovadora, retratando a postura conservadora do autor.
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