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#1727440
Texto da Questão:

TEXTO II


O apanhador de desperdícios


Uso a palavra para compor meus silêncios.

Não gosto das palavras

fatigadas de informar.

Dou mais respeito

às que vivem de barriga no chão

tipo água pedra sapo.

Entendo bem o sotaque das águas

Dou respeito às coisas desimportantes

e aos seres desimportantes.

Prezo insetos mais que aviões.

Prezo a velocidade

das tartarugas mais que a dos mísseis.

Tenho em mim um atraso de nascença.

Eu fui aparelhado

para gostar de passarinhos.

Tenho abundância de ser feliz por isso.

Meu quintal é maior do que o mundo.

Sou um apanhador de desperdícios:

Amo os restos

como as boas moscas.

Queria que a minha voz tivesse um formato

de canto.

Porque eu não sou da informática:

eu sou da invencionática.

Só uso a palavra para compor meus silêncios.


Manoel de Barros

Disponível em -Memórias Inventadas – As Infâncias de

Manoel de Barros – Manoel de Barros – Editora Planeta, 2008, p.45.

Com os versos “Dou mais respeito/às que vivem de barriga no chão/tipo água pedra sapo”, o poeta ressalta um pensamento defendido praticamente em todo o poema, que diz respeito

  • à preferência por palavras simples, que podem ter seu significado reinventado sem que tenham preocupação de apenas informar.
  • ao uso correto da língua portuguesa, que hoje se encontra desprestigiada pelo uso de gírias e de termos da “moda”.
  • à insensibilidade do homem moderno, tão assoberbado que se torna incapaz de perceber a beleza das palavras.
  • ao sentimento de amor à natureza e à valorização da vida, que é desprezada em virtude de interesses econômicos.
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