ERA UMA VEZ UM MENINOZINHO, que tinha
muito medo. Era só soprar um vento forte, desses de
levantar poeira no fundo do quintal e bater com os
postigos da janela; era só haver uma nuvem escura, uma
única, que tampasse o sol; era só esbarrar com a pipa
d’água e ouvir o rico e pesado sacolejar da água dentro,
para que o menino se encolhesse bem no centro de seu
ventre, orelhas retesas, olhos muito abertos ou
obstinadamente fechados. Depois, o menino levantava,
limpava o pó do fundilho das calças e ia para o quintal.
Conhecia as galinhas, os porcos, mas nenhum lhe
pertencia. Achava mesmo engraçado quando via os irmãos
abraçarem um leitãozinho, a irmã mais nova tentando, por
força, enfiar uma de suas saias no bicho. Bicho é bicho,
sabia ele. Bicho tem vida sua, diferente da de gente. Os
irmãos não sabiam. Fingiam que eram bonecas,
criancinhas pequenas e, nos dias de matança, todos já
eram petiscos, brinquedo esquecido.
[...]
(FAILLACE, Tânia Jamardo. A porca. In: MORICONI, Ítalo. Os cem melhores
contos brasileiros do século. São Paulo. Objetiva, 2000.)
O narrador utilizado nesse trecho é classificado como:
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